quarta-feira, setembro 13, 2006

Speakers' Corner §4: M.L.K. - Manifesto Liberdade e Kultura [Parte II]

Houve, de facto, um tempo, em que cri que a Arte era um privilégio de elites abençoadas, estranhamente iluminadas - e que, jamais o «povo» haveria de ascender a percebê-la. Que engano!, que convencimento! Apolo, quando nasce, é para todos. Talvez nisso - como em tudo - tenham visto os Gregos mais longe, ao aproximarem, na mesma pessoa, o deus do Sol e o deus da Arte. Mas, hoje, Apolo, do seu carro, olha - e não encontra a lira. Se a Arte é de todos, onde estão «os todos» para a reclamarem? Em vez disso, «os todos», como prisioneiros da caverna da alegoria, festejam com as sombras - mas, lá fora!, o Sol! O Público contenta-se com falsificações, quando os quadros de Munch foram roubados - mas O Grito e a Madonna foram recuperados!

As massas galvanizam-se com fantasmas, quando, ao lado, na tumba, os falecidos só esperam o seu olhar para ressuscitar ao terceiro dia! Olho em volta - e entristeço-me profundamente, dando vontade de reconstruir o mundo como os «sábios» da Academia de Gulliver. Entra-se numa livraria, mas onde foge a almada exclamação de Almada!:"Deve haver certamente outra maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido." Hoje, a perdição é, amigo Almada!, a tua outrora salvação! Hoje, quando a sibila me quer mostrar, Eneias, o Inferno, leva-me a uma livraria. Tanta coisa sem jeito que pulula ali e que esforço, Deus que esforço!, para encontrar algo bom que não seja, vinho do porto, velho. E quando encontro, Deus encontro!, encontro, como quem encontra um amigo, por acaso, quando sai do café mas já soubesse antes que no café estava o presidente. Oh Almada!, nem imaginas a publicidade desalmada que fazem a tanta porcaria ambulante para que a comprem! Mas são os nomes delas que discutem na rua, como quando saíram As Minas de Salomão do Eça. (não sei se percebeste a ironia do contraste). Todos sabem os nomes delas, como todos sabem o nome do presidente, mas, ai!, quem conhece o meu amigo senão eu? Houve um tempo, Almada, em que as pessoas tinham alma e tinham amigos...

Entro no carro. "Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,/Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,/Sozinho guio, guio quase devagar", ó Álvaro!, e, para saborear toda a modernidade de um só trago, ligo a telefonia. Mas Álvaro, preferia os intonarumori, os «instrumentos» de fazer barulho do teu futurismo! Isto é invariavelmente igual: baçamente distingo. Na rádio, imagina Álvaro!, passam plagiadores de músicas japonesas! E sabes o mais cómico nisto tudo? As pessoas gostam, as pessoas gostam [risos]! Já ninguém tem paciência para triunfalmente escutar os ruídos das fábricas: mas, compensatoriamente, taylorizaram a música. Agora, é como uma receita de uma papa de velha no Pantagruel. Tal como a Fanta, as canções hoje só têm 8% de música, e esta à base de concentrado! O mais compõe-se de vitais elementos: 1º a luxúria de uma mulher ("uma mulher bela que não se ama,/Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.") (ou, no caso masculino, uma metrossexualidade); 2º coreografias (a Madonna concebeu o cristo - e quando nasceu, veio crucificado); 3º computadores (sonhasses, Álvaro!, que um dia viria que a música seria sem instrumentos e sem músicos!). Depois - seguindo a receita, há o forno para o pão. Porque o pão é uma massa de farinha ensopada. É, revelação!, o forno que faz o pão, o fenómeno, o sucesso. O forno chama-se MTV e rádios. No teu tempo, Álvaro, eles lá na telefonia, quando era chegado o horário, tinham um locutor que criava ali, disco-jóquei, algo maior que ele sendo dele. Escolhia as músicas para mostrar e havia quem preferisse, pelos gostos musicais obviamente embutidos nos programas, mais um que outro. Hoje, Álvaro, os locutores chegam à hipocrisia de nem gostarem das músicas que estão a rodar. Vontadas de dinheiro, as editoras asseguram, como quem paga uma publicidade, um número fixo de audições diárias. Num tempo de cabalas, eu creio numa: aquele programa de fim de tarde, que eles chamam discos pedidos, deve também estar todo comprado e quem liga para lá são os empregados das grandes marcas discográficas, intermediárias impingidas dos cantores (nota, Álvaro, hoje já não falamos de músicos, mas de cantores!). Houve um tempo em que os músicos acreditaram no DIY. Sabes?, perdeu-se toda a liberdade. O mundo mudou tanto desde o ano da morte de Ricardo Reis!

Chego a casa. Tiro o casaco, abro o maço que poiso depois de acender um cigarro na cómoda do hall de entrada. Ligo a TV e estendo o braço e compro um comando. Nada. Um vazio. Até a casa está mais cheia, porque me tem a mim. «Produções nacionais» - nome tão alto para o tão baixo! - sucedem-se dinasticamente segundo o molde egípcio de casamentos entre irmãos. O resultado: faraós geneticamente deficientes! Há um ar mongolodita em tudo isto. Desligo a televisão e o cigarro. Monto ao cinema. Olho os cartazes. Raios de não viver em Lisboa! Aqui, o último cinema independente - chamava-se Avenida, o indigente! - fechou no mês passado. Há um semestre abriram, do outro lado do rio, mais seis salas. Deixá-las! Tiro do bolso da gabardina o bocado amuchucado de jornal do dia da página dos cinemas: três filmes de miúdos sem imaginação e quatro blockbusters de verão. E estar a acontecer o Festival de Veneza ao mesmo tempo! E a censura?, a censura! Tenho em casa um dossiê com os obituários pela MPAA. "Weitz stated that New Line Cinema feared that "perceived antireligiosity" would make the film financially unviable in the US." Deus, isto faz algum sentido? Houve um tempo - creio que houve - em que ser artista era um bando de enfants terribles. Hoje, quando vão aos Óscares, vestem-se de gravata.

Isto são as sombras. Mas há, o afirmámos, Apolo. Imputar, na alegoria da caverna, a culpa inteira e pura à fogueira, só porque ela faz as sombras, é negar que há cadeados a prender as mãos dos seus habitantes. Não há, hoje, senão nos que ainda não cresceram (e mesmo esses crescem já hoje tão depressa!), a liberdade suficiente para admitir e aceitar a Arte verdadeira. "You have to understand, most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inert, so hopelessly dependant on the system, that they will fight to protect it.", ensina-nos Morpheus. Pouco há, de facto, a fazer com essas pessoas que matarão o filósofo quando ele, visto o Sol, regressar à caverna platónica. Precisamos de uma nova geração - e nisto temos a vantagem de sermos jovens.

Speakers' Corner §4: M.L.K. - Manifesto Liberdade e Kultura [Parte I]

A.S.: a escrita deste texto foi feita em várias partes, umas longas, outras breves, em dias juntos ou separados, em horas diferentes, na diferença toda que pode comportar o espírito. O texto resulta pois como uma enorme manta de retalhos de estilos - se isso lhe traz riqueza ou o ilide, o juiz - leitor! - decide.


Folheava hoje as páginas virtuais, leitura matutina do jornal novo em que se converteu, sem baptismo, a máquina em que escrevo. Nas informações que pesquisava da adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia His Dark Materials, encontrei na Wikipedia:

"In an interview published on the internet in December 2004, Weitz indicated that the film would make no direct mention of religion or of God; two of the key themes of the trilogy - a decision attacked by fans of the novels. Weitz stated that New Line Cinema feared that "perceived antireligiosity" would make the film financially unviable in the US."

Este é o Tempo em que Arte diminui.

No séc.XX nasceu matarem-se as regras. A libertação libertou-se do que libertar-se. Dadá destruiu toda a seriedade da Arte, e os os russos acabaram com as palavras na literatura (Khlebnikov) e os objectos na pintura (Kandinsky). O Romantismo, enquanto movimento espartaquista, concluiu-se enfim, porque se concretizou finalmente. Na América, houve Greenwich Village. Ah!, esses, esses foram tempos em que o tempo não contava na atemporalidade de que as obras imortais eram cheias! Homens forjaram o quebrar das correntes e ser artista era sinónimo de ser livre! Livre da sociedade, livre da própria arte. Todos eram futuristas, ordenando os incêndios de tudo o que pertencia ao passado, e a inauguração de um tempo novo com a regra nova de não existirem regras. A Arte: acontecia.

"Todo o mundo é composto de mudança".

Hoje, o mundo engravidou de mais um século. Mas, ai Darwin!, estavas errado! Mais tempo não significou mais evolução. Os sinais são demais evidentes: a Arte foi taylorizada. Garrett escreveu nas suas Viagens a receita para uma novela romântica - hoje, tudo tem as suas regras, como se todos tivéssemos saídos de uma gigantesca academia de Belas Artes, chamada cultura pop. A rádio comprime as músicas a quatro minutos, talvez por o quadrado ser para os gregos a forma perfeita. As editoras literárias, canas de bambu, bamboleiam à boleia das tendências (vide Cruzadas Literárias, onde se distingue o bom do mau fruto). O cinema prostitui-se por um PG13. Estamos a ceder a Arte às massas - e a Arte nunca foi uma questão de massas. Não que os dois temas sejam antagónicos - e virá, assim creio, o dia em que, pelo contrário, serão sinónimos - mas tal sucederá não porque a Arte se baixou, mas porque o Público se elevou. Porém, repito, a Arte nunca foi uma questão de massas - porque é um produto, essencialmente, individual.

Enquanto exposição de uma filosofia, de uma mundividência, de uma mensagem, qualque obra de arte torna-se imensamente pessoal, e, quando é verdadeiramente genial, consegue atingir a universalidade. Anna Karenina é uma obra de Tolstoi, com as ideias de Tolstoi - mas capta o fundo do ser humano e, aí, ganha o coração de cada leitor e a essência difícil da psique humana. É desta extrema duplicidade paradoxal - de ser simultaneamente a expressão e a expansão de um «eu» e a possibilidade de identificação anónima com o Homem - que Nietzsche fala num passo da sua Origem da Tragédia: "...pois este «eu» não é já o do homem vigilante, o do homem empírico e real, mas sim o «sujeito» verdadeiro e eterno que existe no fundo de todas as coisas e que o génio lírico sabe reproduzir, penetrando assim até ao íntimo cerne da realidade."

A verdadeira Arte significa, pois, algo para as pessoas. Fala-se, por exemplo, em confirmação do «paradoxo» de cima, de cinema de autor de massas, das mãos de Hitchcock, Tarantino, Kubrick ou Spielberg. A Arte é Humanidade e condição essencial, como a Filosofia ou a Ciência, da nossa realização humana. Por isso, a Arte tem Público. Eu não acredito na estupidez das pessoas: eu acredito na sua estupidificação. Se a Arte tem de se livre, não menos livre tem de ser quem se dispõe a acolher essa Arte. E, Deus!, é isso que nos falta! Espíritos livres e espíritos presos que se queiram libertar! Entre o artista e o consumidor surgiu esta figura, exôtica, estranha, condicionante: o editor/o produtor. Nunca houve tanta oferta e nunca a cultura foi tão monólita. Este é o tempo dos media - «media» porque intermediários. E, porque intermediários, eles filtram a produção artística, condicionando o sucesso ou insucesso dos projectos criativos. Vivemos o tempo da Arte fabricada: o sucesso artístico é um fenómeno independente do artista. O sucesso da generalidade dos cantores de hoje em nada se deve aos seus talentos, mas à MTV; o triunfo de filmes de acção repetidos e comédias românticas adolescentes, ao marketing; as vendas de inúmeros autores, a irem às cavalitas de um género que obtém um breakthrough. Goethe escreveu na opus Fausto:"Que a sorte sem mérito pouco vale/Um tolo nunca o entenderia;/Tivesse ele a pedra filosofal/E inda o filósofo à pedra faltaria."

segunda-feira, setembro 11, 2006

Moleskines §6: Consequência/Colagem

AVISO&
"I would prefer not to."
by Bartleby, The Scrivener


PARTE I

TYLER

You have a kind of sick desperation in your laugh.

Tyler reaches under the seat in front of him and lifts a BRIEFCASE. Unnamed points to his own briefcase.

UNNAMED
We have the exact same briefcase.

Tyler opens his briefcase. He pops the latches and raises the lid to reveal quaintly-wrapped bars of SOAP.

TYLER
Soap.

UNNAMED
Sorry?

TYLER
I make and I sale soap. The yardstick of civilization.

Tyler reaches the briefcase and takes out his card. He hands it to Unnamed. "THE PAPER STREET SOAP COMPANY".

UNNAMED (V.O.)
And this is how I met--

UNNAMED
Tyler Durden.

TYLER
Did you know if you mixed equal parts of gasoline and frozen orange juice concentrate,
you could make napalm?

UNNAMED
No, I didn't know that, is that true?

TYLER
That's right. One can make all kinds of explosives using simple household items.

UNNAMED
Really?

TYLER
If one were so inclined.

Tyler SNAPS the briefcase shut. Unnamed stares.

UNNAMED
Tyler, you are by far, the most interesting single-serving friend I've ever met.

Tyler stares Unnamed. Unnamed, enjoying his own chance to be witty, leans closer to Tyler.

UNNAMED
See, obviously everything on a plane is single-serving, even--

TYLER
Oh, I get it. It's very clever.

UNNAMED
Thank you.

TYLER
How's that working out for you?

UNNAMED
What?

TYLER
Being clever.

UNNAMED
(thrown)
Great.

TYLER
Keep it up then. Right up.


PARTE II

http://vileheadquarters.com/downloads/games/
1. Where in the World is Carmen Sandiego?

Mother, do you think they'll drop the bomb?
Mother, do you think they'll like this song?
Mother, do you think they'll try to break my balls?
Mother, should I build the wall?
Mother, should I run for President?
Mother, should I trust the government?
Mother, will they put me in the firing line?
Is it just a waste of time?

Hush now baby, baby, don't you cry
Momma's gonna make all of your nightmares come true
Momma's gonna put all of her fears into you
Momma's gonna keep you right here under her wing
She won't let you fly, but she might let you sing
Momma's will keep Baby cozy and warm
Oooo Babe
Oooo Babe
Ooo Babe, of course Momma's gonna help build the wall

Mother, do you think she's good enough
For me?
Mother, do you think she's dangerous
To me?
Mother will she tear your little boy apart?
Mother, will she break my heart?

Hush now baby, baby, don't you cry
Momma's gonna check out all your girlfriends for you
Momma won't let anyone dirty get through
Momma's gonna wait up until you get in
Momma will always find out where you've been
Momma's gonna keep Baby healthy and clean
Oooo Babe
Oooo Babe
Ooo Babe, you'll always be Baby to me

Mother, did it need to be so high?

Ars Scientia


PARTE I [reprise]



PARTE III

AMOR: CUBO DE KUBRICK

O meu coração pesa gravítico bloco megalítico
Monolítico 2001 odisseia «Hal, open the door.»

Quoth the Hal: «Nevermore!»!
5.6.2006



Aldeous Huxley
[como segundo aviso e exemplo]

[instruções: clique sobre a imagem para ouVER]


PARTE IV

[...]
I just don't know what to do with myself
I don't know what to do with myself
planning everything for two
doing everything with you
and now that we're through
I just don't know what to do

I just don't know what to do with myself
I don't know what to do with myself
movies only make me sad
parties make me feel as bad
cause I'm not with you
I just don't know what to do
[...]


Duas Mulheres Bonitas Para Consolo Dos Tristes De Amor:












































O Filme Para O Meu Coração Cem-Sentimentos
:

[instruções 2: clique sobre a imagem para aumentar]


PARTE V

The Trial
[instruções 3: clique sobre o link para ouvir o julgamento]



PRÓLOGO:
"Aplaudite, amici, comoedia finita est!"
Last Words by Ludwig Van Beethoven


quarta-feira, setembro 06, 2006

Moleskines §5: E.L.E.N.D. [ouvindo]

E
A criança calara-se, súbita. Assim: no meio de uma conversação, normal, corrente, agitada e habitada. A família anciana ocupava olimpiamente a mesa. Discutia-se a manchete. O pai discursava, politicamente, expondo as pespectivas da razão. A mãe, adocicadamente, elevava o garfo castanho à boca e mastigava como chiquelete. «Muda de assunto: a criança está calada.» Tapava-a o desinteresse óbvio da matéria e a mãe, mediocramente perspicaz, aprendera-o. «Conta: como foi a escola?». A criança ergueu-se do seu lugar, ascendendo aérea, antigravitacional, numa iluminura budista. Contornou, misteriosamente, a távola, à altura do tampo até olhar a matrona. Tocou-lhe, contacto, com a ponta do dedo, extraterrasterialmente. A mãe pegou-a, precisamente, e levantou-a ao seu colo carnudo, aconchegando-a. A criança pousada, pousadamente, rodou o olhar para a mulher. «Dá-me um beijinho.» Mímica à acopolagem de uma nave, a mãe beijou-lhe, madonna, a fronte élfica. E a criança calou-se - para nunca mais falar. «Querias um beijinho da mamã?», perguntou, ternurante ternurenta. A criança, grave, deslizou, aeronâutica, numa linha de produção inexistente, afastando-se à velocidade de um produto. A mãe contemplou-a com estranheza e incompreensão temida. A criança surreal desceu da banda de montagem e montou, no mesmo passo, à cadeira original. Não comeu mais. «Filho, o que é que tens?», interrogou, paranormalmente, a senhora. O Horror. A criança ergueu o rosto, descomposto de aflitiva anagnórise, visão de são paulo, reconhecimento. A mãe levantou-se intempestiva e correu a recuperar o filho. Um espírito morto habitava a criança. «Rápido! temos de o levar ao hospital!» O pai arrancou o guardanapo, varreu o bigode, abriu a gaveta e procurou a chave. «Acende a luz!». A mãe comprimiu a criança vivamente contra si, embalando-a acidentada. Acendeu o interruptor. Um barulho esquizofrénico de chaves e moedas misturdas a chocalhar monte abaixo. A mulher trocava para sapatos altos, segurando, por cima do ombro, nascituramente, o filho. A criança, pacífica, assistia a tudo, como um menino jesus no templo. eureka em português. o pai correu para a porta, saíram para o elevador, entraram no carro (a mãe na parte de trás com a criança) e arrancaram. A criança guardava o aspecto circunspecto, embriagado de neutralidade impassiva, muito triste. A mãe, sistemicamente, coçava-lhe de festas a cabeça e reclinava-se para o beijar, colibri. Podiam ter sido felizes.

L
O médico voltou-se incompreendendo para os pais «O vosso filho não tem qualquer doença. Analisei-o e ele não manifesta quaisquer sintomas» pousou «mas concordo manifestamente que algo não está bem com aquela criança» olhou de soslaio para o paciente, sentado, doente, no bordo da cama cirúrgica «é como se, de um momento para o outro, pudesse começar a derreter e víssemos a pele dele descer, larga, cera, pelo corpo todo, nu» A mãe, violentamente, olhou o médico, violada. O pai, mais temperado, perguntou «O que nos aconselha a fazer?» «Procurem um psicólogo.» A criança continuava, branca, alheada, autista - e a mãe mordia os lábios para dentro.

E
Pôs-lhe, controlado, uma folha de papel à frente e uma caneta ao lado. Amarrou as mãos, avançou-se na espinha dorsal, pisamente, como uma placa metálica metícula guindastamente encostada. «Se quiseres, em vez de falar, escrever - está à vontade». A criança não pegou no utensílio. A criança não se mexia de todo. Olhava para o homem, testa tremilitantemente franzida, como quem sofresse demasiado solicitando eutanásia. O psicólogo concentrava-se, mascaradamente, no chão. Imóvel, pediu «Escreve na folha o que te atormenta, senão, nem eu, nem os teus pais te poderemos ajudar». A criança baixou os ombros, desconsolada, e abriu as mãos, lady macbeth mostrando o sangue. Na face, contorcida, a incredulidade, a desfiguração. «Raios, miúdo, diz alguma coisa!» ergueu-se, proteu acordado, anjo do diabo, o -analista. A criança, cristo chagado, recolheu os estigmas e pousou as palmas sobre o peito, deixando cair, desfeito, o coração à perna. Começou a chorar adultamente. A besta amansou-se e o psicólogo mirou-o, celebratório. A reacção chamara ao quarto os pais exteriorizados. E a mãe, conquistadora, gávea, exclamou, exultante (e o menino saltou-lhe de alegria no seio - lc 1,41): «Ele chora!», numa ascenção dos nomes até ao berro. E uma gargalhada, um riso puro, éclatante, iluminou o quarto. «Ele chora!» confirmou, alegre, transformada grega. E Apolo cresceu frondosamente naquela ilha de Leda. O pai encarou a mãe e jubilou, abraçando-a, com uma mão espetada carnívora numa nádega erótica e a outra serpenteando a costa até ao ombro de Pélops, agarrando-o como quem deseja desfazer. Altivos, beijaram-se encaixadamente, atemporais. O psicólogo, celebrante, exclamava ahah! no mesmo tom sucessivas vezes. Os três reuniram-se em torno da cadeira condenatória do protestante e, marias sanguinolentas, dançaram três vezes no sentido contrário ao dos ponteiros em volta do herege, festejando, entoando os cânticos com que cristo foi recebido na entrada de jerusalém. E era grande a alegria no mundo - porque a criança tinha chorado. A mãe reconfortava-se com a certeza da vivência do filho, da capacidade de expressar emoções, da humanidade do que antes era um boneco animado de Hoffman. O filho rompera a máscara imutável e rígida e ferreira - era o fim do carnaval de veneza. O pai revibrava os ecos de entusiasmo da mãe numa discussão com o psicólogo para marcação de posteriores consultas. Efusivamente, a mãe erguia a criança nos braços e no ar e apresentava «Meu filho!» «Meu filho!» «Meu filho!» ia repetindo na marcha circunstancial que abandonava o consultório, seguida dos dois. «Meu filho!», mostrava, e os outros pacientes prostravam-se, genuflectiam, e voltavam o rosto para o chão na passagem da rainha e do filho. O pai, por detrás, lançava, esfuziantemente, notas como grãos de arroz casados. Tombavam como pétalas oficiais no caminho da marcha. O psicólogo, oficial, formal, com botas, fechava o Triunfo. E as buzinas dos carros, audíveis do exterior, salutavam, trombetas, a procissão, anunciando o regresso do filho pródigo. E, no topo, recém-nascido, a criança chorava calada, mansamente - porque sozinha.

N
A criança percebera tudo. A criança sempre fora muito inteligente. Lia avidamente desde a mais tenra terna infância e as grandes obras do mundo contava-as amigas. A criança entendera, pois, toda a circunstância, como se endormecesse debaixo de uma figueira. Aos pais perturbava, inquietando, sua tristeza mais que seu silêncio. Hume, não compreendiam a união científica das coisas pelas causas no universo. E a criança tomou uma decisão: ia ser hipócrita. Saiu do seu quarto e apresentou-se na sala. Os pais, no sofá, observavam televisão. A mãe, primeira, viu-o. A criança vestia um sorriso fechado, mas largo, como os lábios constituíssem uma cicatriz. As bochechas curvavam-se em covinhas waltdisneianas e, como um produto japonês, os olhos luziam, inchados. A mãe ajoelhou-se e agarrou-o. A criança sorria como um boneco de palhaço. O pai, serenamente, levantou-se e, de pé, passou a mão, cigarreiramente, pelos cabelos do filho, rebolando-os. Ele olhou para cima e piscou os olhos, rápido. Acomodou o sorriso a proporções menores, pelo cansaço gerando pelo esforço muscular. «Senta-te aqui a ver este filme connosco.», convidou, sentando-o, a mãe. Ele fechou os olhos e sorriu mais expansivamente, no movimento #42 da sua lista de hipocrisias planeadas. A mãe puxou-o para si e ele respondeu agarrando-a também (#34). Finalmente, os pais estavam, genuinamente, felizes. Haviam aceite a mudez dele como um um acidente, como partisse um braço ou diagnosticassem dislexia: mais estranha, mais bizarra - mas facilmente co-vivenciável. A criança, cansada do fingimento, fingiu adormecer. A esposa sorriu ao marido, consolada.

D
Ai!, a criança dionisíaca vira mais longe do que eles todos! Ostracizada à hipocrisia pela sociabilidade, rindo eternamente, era palhaço: mas chamava-se Pierrot.! A criança templária, culta, vasta, sábia,! percebera tão simplesmente que não havia mais nada para dizer. Tudo o que possivelmente podia ainda restar a um novo homem para dizer quando crescesse, tudo,! fora extirpado pelo tempo anterior. E a criança, tão jovem!, tão inocente!, (coitada!) tivera de lidar com esta súbita verdade, demasiado imensa, imensamente enorme! para poder haver quem a pudesse. Não havia mais nada para dizer - não havia mais nada para ler. A análise humana, a exagese da alma, o entendimento do mundo: concluíram-se nos séculos passados. Fukuyama, a criança proclamou, resoluta, o fim da literatura. Não havia nada mais a escrever. Tudo o que interessava, verdadeiramente, ao homem: estava declarado. Alcançara-se o positivismo. Tudo perdia o sentido doravante, porque tudo não acrescentava nada. E a criança calou-se. Faltara-lhe a força para não pedir (pobre!, era só uma criança!) um último beijo à mãe! Era o saber isto tudo, como de resto é o saber qualquer coisa que seja, que perturbava a criança, kurtz, visionadora do horror. O horror da alma humana, totalmente, conclusivamente, desvelada. O horror da morte da palavra. O Horror!


"The rest is silence."
Hamlet, Shakespeare

segunda-feira, setembro 04, 2006

Quoth The Raven §2: Explicação

Possível é, no entanto, que a poesia desapareça antes da espécie humana, e também não é de excluir que ao fim e ao cabo não tenha passado de uma actividade menor e esporádica, a avaliar pela falta de resposta vital com que tem sido acolhida pela imensa maioria do público. Neste aspecto, a época crepuscular que atravessamos é das mais decepccionantes, não encontrando outras máscaras para disfarçar a sua atonia profunda senão as da leviandade e da presunção. Vai londe o tempo, realmente, em que Baudelaire sonhava ser capaz de persuadir os burgueses de que a poesia lhes era tão necessária como pão.

Cristais e Corais, apresentação de Ernesto SAMPAIO
na tradução homónima da antologia

Poemas, de André Breton, Assírio&Alvim

sábado, julho 15, 2006

Speakers' Corner §3: Diário de Bordo do Apocalipse [i]

os sinais

Plagiando mudando Pessoa:
«Vem a Sr.ª Maria de Lurdes Rodrigues... Aquilo é que é uma besta!»

Portugal é governado, foi governado e continuará, sem mudança, sendo governado por uma cambada de incompetentes. Todo o homem de inteligência lúcida e pura afasta-se, no completamente possível, da política impossível. Portugal acabará como país, porque não pode acabar o que já acabou: como cultura. Os homens grandes que aqui nascerem não deverão nada aos que nasceram com eles e serem grandes será independente de serem portugueses.
O ensino português hoje só pode produzir bestas quadradas porque quem o dirige, dirigiu e dirigerá é um bando de cavalgaduras. Todo o português desta geração que não for uma besta quadrada educou-se ou foi educado estrangeiradamente em insulto cuspido ao ensino pátrio praticado. (Graças a Deus que existe Erasmus!)
Declaro, Mr. Keating, que está na altura de rasgarmos esses manuais oficiais e aprendermos poesia! Poucos foram, no colégio, os que entraram no Clube dos Poetas Mortos - esses, contundo, engrandeceram e, o mais alto, racional, partiu, seguro. É esta a rota iluminada de todos os que guardaram os olhos apesar das trevas.
Repito: se alguém há dos nascituros do meu tempo - da stupid generation from 88 (White Lie) - que não é uma besta quadrada, devo-o a ser um pássaro, não há loba (rameira, em latim) que o amamentou animalesca. A vaca, de facto, só faz asneira - marrando cornadas nos exames.
Este é o último sinal do Apocalipse - começou.

O escândalo da aberração dos exames veio confirmar a palavra de todos os queixosos e a incompetência declarada da Ministra, que, elefante branco, arrasa toda a porcelana do lojista - é gordo, feio e cadavérico e não se enterra no cemitério dos da sua espécie por fim. Que se repitam os exames! Que se repitam todos! Que se instale a anarquia nas Universidades e nos concursos! Num país de ministra totalitária, só a máxima libertinagem política e burocrática nos poderá resgata. A Ministra é uma burra! A Ministra é o Anti-Cristo! A Ministra governa!
Só com o fim do Estado pode vir o fim da incompetência estatal.
Agradeçamos o Apocalipse próximo que poremos em mãos nossas.

Almadamente,
...

quarta-feira, junho 28, 2006

Quoth The Raven §2: Ode To L.A. While Thinking Of Brian Jones, Deceased; de Jim Morrison

I'm a resident of a city
They've just picked me to play
the Prince of Denmark


Poor Ophelia

All those ghosts he never saw

Floating to doom
On an iron candle


Come back, brave warrior
Do the dive
On another channel

Hot buttered pool
Where's Marrakesh
Under the falls

the wild storm
where savages fell out

in late afternoon
monsters of rhythm


You've left your
Nothing
to compete w/

Silence

I hope you went out
Smiling
Like a child
Into the cool remnant
of a dream

The angel man

w/ Serpents competing
for his palms
& fingers
Finally claimed
This benevolent

Soul

Ophelia

Leaves, sodden
in silk


Chlorine
dream
mad stifled
Witness

The diving board, the plunge
The pool


You were a fighter
a damask musky muse


You were the bleached
Sun
for TV afternoon

horned-toads
maverick of a yellow spot


Look now to where it's got

You

in meat heaven
w/ the cannibals
& jews

The gardener

Found
The body, rampant, Floating

Lucky Stiff

What is this green pale stuff
You're made of

Poke holes in the goddess
Skin

Will he Stink

Carried heavenward
Thru the halls

of music

No Chance.

Requiem for a heavy
That smile
That porky satyr's

leer
has leaped upward

into the loam


(A minha homenagem aos 60's, depois de ver o filme Stoned:
Jim Morrison louvando Brian Jones comigo ouvindo Led Zeppelin)