a/c Partir Para Ficar, Linda Martini
O Imortal, Jorge Luis Borges


Os Filhos de Húrin, J. R. R. Tolkien
Gulliver não errara a traçar o mapa de balnibarni. Descobri rapidamente a academia, único edifício intacto entre as ruínas, de resto. Entrei e perguntei ao primeiro cientista com que me cruzei pelo gabinete de platão. O homem, porém, renunciara, por comodidade linguística, ao uso das vogais, pelo que se tornava incompreensível. Valeram-me os seus gestos. Depois de passar uns corredores, bati à porta: houve um certo intervalo de tempo até o filósofo me aparecer. Quando me viu, correu como que assustado para a secretária, perguntou-me o nome aflito, o apelido, e registou os dados nervosamente num caderno de pele alfarrabista. Mais descansado, estendeu-me então a mão e pediu-me que lhe chamasse arístocles, o nome da sua juventude. Confessava-me que se chamarmos muitas vezes pela mesma palavra, como fazia o vergílio ferreira quando ensinava o bexiguinha, se ela perde o significado, não é porque o perca de facto (aqui, olhando-me no rosto por meio dos seus óculos grandes e redondos, recordou-me, com um sorriso, a lei de laplace), mas porque a sua essência, como um ovo a que se quebra a casca mole, se esvazia sobre o real, contaminando-o, alterando-o. As pessoas, sussurrava-me platão, desconfiavam dessa sua ideia (talvez, tentava justificar na sua plácida compreensão, porque usam tanto as palavras que têm medo que se possam ferir nelas enquanto ferem os outros), mas, de resto, as pessoas também não acreditavam que se podia colher no sonho uma flor azul como novalis ou, como sandman, arranjar uma garrafa de chateau lafitte 1828 para oferecer a um amigo antes de se descer ao inferno. Platão cria pois que, se todos o tratassem por arístocles, o nome sob o qual descreu da democracia quando viu o mestre morrer, a palavra acabaria por infundir sobre a realidade a juventude perdida. Facto era que platão se mantinha satisfatoriamente jovem, com pouco mais que uma curta barba triangular pelo prazer de a cofiar. Explicou-me o porquê da sua pressa inicial: como nada era mais que reminiscência, convinha apontar sistematicamente tudo com o qual nos cruzávamos, porquanto era mais um pedaço de eternidade que recuperávamos para a nossa alma. Os seus cadernos (cuja colecção só me parece comparável à dos diários de john doe descobertos por freeman e pitt) ocupavam várias estantes. Dispôs-se a ouvir-me e interroguei-o então sobre o regresso à caverna. Sentiu-se visivelmente incomodado, mas acedeu por fim a narrar a coisa. Lembrava-se bem do dia em que saíra. Não sabia como as correntes se tinham desprendido: isso era um facto, ali para ele aceitar. O movimento foi-lhe assaz complicado, pois os músculos tinham atrofiado no cativeiro e sentia-se como um neo espetado de agulhas para recompor os tecidos. Como uma beatrix kiddo num jipe, ousou primeiro mexer lentamente os dedos dos pés e daí foi-se reconstruindo. Viu então os homens e a lareira: mas isso não o ajudou a perceber o que eram as sombras - e durante a sua escalada até à superfície, cria ainda na realidade das pinturas rupestres andantes da caverna. Foi então que uma furiosa luz lhe penetrou os olhos como um saulo a caminho de damasco - e ele viu o sol, como um galileu: e percebeu que a terra girava em torno da estrela e não o contrário, que as sombras eram espelhos das coisas verdadeiras e não o inverso. E viu o cavalo e a rosa (platão, de emoção, começou a chorar). Aqui, o filósofo contou-me a verdade: como um ulisses na ilha de circe, esqueceu ítaca e permaneceu com a amante (a realidade) alguns anos. Afastou-se da caverna e quando não a viu, como um berkely, considerou que ela jamais tinha existido. Uma princesa, um dia, descobrindo-o no rio, recolheu-o e pediu ao pai que o recebessem no palácio e o educassem como seu irmão (a princesa, na realidade, tinha-se tão somente apaixonado por ele). Os homens deram-lhe um novo nome e chamaram-lhe moisés. Aprendeu os preceitos humanos e a beleza da mulher. E um dia, querendo saber o nome de todas as coisas, perguntou à sua irmã o nome do maior sentimento que o coração humano podia experimentar, e ela respondeu-lhe «amor». E doravante platão soube que a amava. Namoraram longamente, com a paciência com que namoram estalactites e estalagmites: ela vinha (ele sabia isso, apesar de ainda não terem naquela altura inventado o cristianismo) nitidamente do céu, e ele literalmente da terra. Por fim, combinaram o casamento e o faraó alegrou-se pelo dia em que a filha lhe pediu que resgatassem o rapaz. Ela fechou-se então no quarto, segundo o costume daquelas terras: e no dia em que acabasse de tecer o seu vestido de noiva, como uma penélope fabricando a teia honestamente, na manhã seguinte realizar-se-ia a boda. Impossibilitado de a ver, arístocles passeava pelos bosques e campos em redor da cidade, consumindo os seus dias na espera com as plantas (nesse tempo, em que o homem ainda fazia parte integrante da natureza, e não lhe era inimigo e estranho, também as nuvens se calavam na espera da linha última do vestido da princesa, e aguardavam as suas lágrimas para como grãos de arroz as deixarem cair no dia do casamento - desse tempo mítico, alas!, sobrou apenas o provérbio). Um dia, porém, passeando a cavalo, platão desembocou na caverna donde emergira toupeira ao mundo: e em revê-la, recordou tudo. Uma súbita urgência acometeu-o, e relembrou-se de quantos continuavam soterrados de mentira. Desceu do animal, e enterrou-se caverna adentro, pelos túneis cujo labirinto já não se recordava. Acabou, eventualmente, por achar os seus antigos irmãos e pela primeira vez viu-os: e percebeu como eram feios, desfigurados pela mentira, separados da luz. Um súbito nojo apoderou-se dele e por momentos hesitou na sua missão, como um jonas: mas não tinha uma baleia em que se enterrar para fugir, e por isso pregou em nínive: a sua voz irrompeu pela caverna como uma coisa estranha, ecoando. Pediu-lhes atenção e delicadamente procurou exprimir-lhes a verdade. Viu nos rostos deles a incompreensão, e então se lembrou que falava na língua dos homens da superfície (os übermenschen), da qual o dialecto dos homens inferiores não é mais que uma corruptela: eles não o compreendiam (também a língua, sublinhava-me platão, tem um arquétipo no hiperurano). Sentou-se, desiludido, entre os prisioneiros, e em vão procurou relembrar a sua linguagem. Pelo esforço dos meses, foi reaprendendo o calão até se sentir preparado para pronunciar o seu sermão aos peixes. Colocou-se então frente às figuras de sombra que corriam pela parede e iniciou. Os homens e mulheres escutaram-no com atenção e, quando por fim ele concluiu, cuspiram-lhe o desprezo sobre o rosto, por se ousar a proclamá-los todos loucos, crentes de fantasmas. Insultaram-no na língua baixa (só essa permite a fealdade das palavras) e as suas ofensas massacravam-no como um orestes a quem são dadas ouvir as vozes das erínias da consciência. Fugiu dali e escalou para a luz, mas era noite quando descobriu a superfície. Correu pela floresta, rasgando nos espinhos e nas árvores o seu robe de josé de mil cores. Em chegando às margens da cidade, viu uma lenta procissão e um poeta que elegiava. Escondido atrás de uma árvore, percebeu que era um enterro: o seu coração assustou-se: que amigo seu, que ali deixara, seria? Foi então que nitidamente, por entre as ladainhas, percebeu o nome da sua noiva e sua irmã. Baixaram o andor e um cadáver desceu à terra: o último lugar onde lhe faltou procurar pelo seu amado, e donde ele, por fim, fugira.
No dia em que ele se submergira de novo, nesse dia a princesa desceu a escadaria circular de trezentos e trinta e três degraus da torre onde compusera com paciência o seu longo vestido de noiva, cujo final da cauda permanecia na sala onde fiara quando o seu pé pousava já a entrada. De imediato, muitos correram a procurar o noivo - mas nenhum o descobriu. A princesa, confiante no amor dele, não se afligiu, e considerou o atraso ser só um atraso, na honestidade da realidade. A noite passou e no dia seguinte, o do casamento, ninguém encontrou moisés. Procuraram pela cidade e pelos arrabaldes, mas em vão. Os dias foram-se volvendo, até formarem uma semana. E então a princesa declarou perante o povo e os pais, imersa em tristeza, que recomeçaria o caminho para o topo da torre: subiria um degrau por dia e, quando atingisse por fim a cela onde, antes dela, dánae concebera, o quarto onde pacientemente urdira o inútil véu que trazia sobre o corpo, chegando aí, se não houvesse novas de moisés, olharia ela mesma pela janela durante um dia e uma noite e, se no fim dessa vigília não tivesse achado rasto dele nem pegadas suas no horizonte, cortaria a cauda do seu vestido com a tesoura com que o fiara e precipitar-se-ia em seguida da torre. A ameaça fez os esforços redobrarem, e rapidamente se mobilizaram grandes forças para saber o paradeiro de platão. Os reis em pessoa dirigiram-se aos grandes reinos vizinhos, mas ninguém sabia do seu genro. Como telémacos, deambulavam sem respostas. E a cada dia, cumprindo a sua promessa, a princesa subia mais um degrau. Quando se completou perto de um ano, e os dias se perfizeram, a princesa da sua torre contemplou as terras em redor e esticou a vista até ao mar, procurando os navios. A sua mãe, aflita, saiu de casa e, depois de não ter achado resposta nos homens, começou a interrogar as coisas: perguntou à rocha donde nascia o rio se sabia de moisés, e ela chorou, murmurando que não; perguntou ao único pássaro capaz de voar até ao topo da torre da princesa, ele que via tão longe, mas também ele não sabia de platão; perguntou à árvore mais antiga do bosque, e na sua sabedoria, a árvores desconhecia. A todos interrogou e de todos ouviu a mesma resposta. Por fim, no caminho para casa, nas últimas horas do dia, um azevinho, vendo-a passar, disse: «Sei o que buscas e sei onde está; porém, recuso-me a revelar-te o seu paradeiro: um dia recusaste um beijo sob o meu tecto, e ofendeste-me». A rainha recordou: num inverno, de facto, sobre um azevinho, recusara, ainda menina (vivia inclusive ainda na sua terra-natal), beijar um pequeno rapaz que insistia em lhe fazer a corte, mas de quem ela pouco ou nada gostava. A rainha, lembrando-se da sua culpa infantil, atirou-se aos pés da erva: «Por favor, a minha filha morrerá se guardares esse segredo contigo. Desonrei-te, é verdade, mas era ainda criança, sabia mal as regras do jogo do mundo. E, de resto, que tem a minha filha a ver com a minha culpa? Adão e eva e o pecado original são fantasias falsas de outros séculos ainda por vir». O azevinho, orgulhoso como um deus, insistiu na sua recusa. Toda a noite, por todos os argumentos, a rainha procurou convencê-lo a, pelo menos, indiciar algo, uma notícia breve que pudesse, contudo, salvar a sua filha. O azevinho persistiu na teimosia. Havia um desejo secreto em todos os corações de que o sol não se levantasse, para que a noiva não caísse. A estrela, porém, não obedece à vontade humana, e, quando os galos o anunciaram, irrompeu. Quando um raio de sol, penetrando pela janela, fez cócegas no rosto da princesa, esta despertou os olhos e a vontade, firmou a resolução e encaminhou-se para a janela. Em plena majestade, iluminada como se fosse um ser diáfano, todos a contemplaram, receptáculo virgem do calor solar. De olhos fixos, ela buscou, com o tacto, a tesoura: achou-a e cortou de uma raiva só a cauda do vestido. Não lhe corria uma lágrima pelos olhos. A mãe, vendo tudo, num acto de desespero, lançou-se escadas acima, aos gritos. Ela sentou-se no parapeito (a multidão, em baixo, observava). Lentamente, pôs as pernas para fora, ficando como que à beira de um rio invisível, molhando-se. Ficou naquilo um certo tempo. Por fim, já inesperadamente, atirou-se súbita, quando a mãe entrava no quarto. O corpo precipitou-se e quebrou-se no chão, desfigurando-a e soltando o sangue. O pai correu para a filha, sem coragem de a tocar. A mãe desceu a torre e abraçou-a nos braços, manchando-se do sangue dela. Marcou-se o enterro para daí a três dias. O pai calou-se, e não falava. A mãe assumiu então as rédeas do poder, desgovernada. Ordenou que cortassem a cabeça a todos os galos, que jamais deviam anunciar as manhãs. A torre, mandou que fosse selada e jamais aberta. Mas a sua vingança mais terrível foi contra o azevinho. A rainha ordenou que cobrissem todos os azevinhos do reino (que eram, como todos sabem, brancos, nesse tempo de outrora) com o sangue da sua filha. Ela mesmo se dirigiu ao fatídico azevinho com que falara na véspera e baptizou-o com estas palavras: «Cheira o sangue daquela que mataste. Doravante, todos os da tua raça carregarão a tua culpa, tal como a minha filha teve de expiar a minha». E assim o azevinho se tornou vermelho, mas dizem os mais incrédulos que, se ainda hoje preserva a cor, não é certamente por ainda se recobrir do sangue da princesa, mas pela vergonha eterna do seu acto. Platão nunca soube nada disto: soube apenas - e isso bastava para a sua desgraça e miséria - que a sua irmã e amante morrera, e a culpa era dele (sussurrava-lhe o coração essa certeza). Esperou que todos se retirassem e se fechassem nas suas casas para se deitar sobre a campa rasa e aí carpir os seus erros. Perdera os dois mundos: o que amava e o que odiava. (Mais tarde, Shakespeare dramatizou este episódio do enterro em Hamlet). Deambulou perdido, como um caim, a leste do paraíso, até encontrar um país. Perguntou o nome: responderam-lhe Hélade. Resolveu fixar-se aí e dissolver as mágoas na filosofia: começou a ensinar mas, tímido como era (e lembrando que tudo, neste mundo, eram sombras, e cabe ao homem descobrir os arquétipos), criou uma personagem para divulgar os seus ensinamentos. Depois de alguma indecisão sobre o nome a dar-lhe, resolveu chamar-lhe sócrates. Criou para ele toda uma vida e, muitos séculos mais tarde, um fernando, inspirado por ele, resolveu imitá-lo e criou alguns heterónimos também. Já cansado, especialmente quando as pessoas se começaram a virar para um discípulo seu (infelizmente bastante menor), resolveu desaparecer. Foi procurando outros países, então, que eventualmente fora dar a balnibarbi. Sim, tinha conhecido gulliver, e lembrava-se dele, ainda que gulliver se tenha esquecido de o mencionar no relato das suas viagens. Na realidade, explicou-me, pediu isso especialmente a lemuel, o qual acedeu e guardou silêncio. Disse-me que não me preocupasse, porque a mim não me exigiria o mesmo voto. Confessou-me que, se se retirara para aquela academia decadente, era porque, pelo menos ali, podia descansar em paz, sem se sentir rejeitado. Pessoalmente, porém, creio que platão procurava expiar no meio daquela imundície física e intelectual os seus pecados, a ofensa inominável que cometera contra o mundo das coisas belas e a destruição irrecuperável do arquétipo do Belo (explicou-me que toda e qualquer referência a esse arquétipo nas suas obras é um acrescento dos seus discípulos: ele bem antes de ser grego sabia que o Belo estava enterrada numa noite que nenhum mapa registava). A falta dessa arquétipo, aliás, era uma problema metafísico que o obcecava (esta era a sua perífrase para traduzir o seu sofrimento contínuo, a dor de um amor destruído). Ao começar a falar destas coisas, platão tornou-se mais distante, no exercício da reminiscência da amada. Achei por bem deixá-lo sozinho e, discretamente, abandonei o gabinete. Imagino que ele jamais se apercebeu disso.
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando."
Quarto/As Ilhas Afortunadas, Fernando Pessoa
A Leandro R. Ribeiro
Quando ela fechou o corpo, o príncipe ergueu-se do seu assento, percorreu lentamente, mas seguro, os azulejos do chão até ela, e, prostrando-se a seus pés, pediu, humilde: «Casa comigo, mulher». «Chama-me esposa», respondeu ela. O sultão abençoou logo ali o par (não fora sem expectativas que convidara o jovem a ficar alojado no seu palácio: logo no primeiro dia tinha percebido que ele era um excelente partido, e que havia que mobilizar todos os esforços para o cativar). Marcou-se o casamento e salomé foi apresentada aos pais dos seu noivo. O sultão acrescentou à filha como dote uma razoável quantia de ouro, largos hectares de terra e os seus prisioneiros, que oferecia como escravos. Ao casamento, depois da cerimónia, sucedeu um opulento banquete, organizado no palácio do pai do noivo. As servas e os servos, hebes e ganimedes, corriam agitados pelas mesas, distribuindo a bebida, o alimento e o fausto. A meio da refeição, mandou-se entrar uma bailarina, para ir distraindo os convivas. Vendo isso, o noivo falou a seu pai: «Pai, porque mandas uma mulher destas ao nosso jantar quando a tua nora se senta à mesma mesa? Dispensa esta bailarina e pede a salomé que dance para ti». O sultão reflectiu naquelas palavras e num gesto ordenou à dançarina que abandonasse o recinto. Ergueu-se então e batendo palmas lentas captou a atenção de todos: «Salomé, sabemos-te dançarina: dança para nós, por favor». A rapariga levantou-se, corada interiormente. Contornou a mesa e os homens, e foi para o centro da sala, onde parou. Inspirou e permaneceu. Quando o sultão ponderava já, delicadamente, incitá-la à dança, ela começou e moveu-se como as folhas a quem o vento dá remoinho e levanta do chão: aérea, ela parecia caminhar sobre pontes de luz. Tendo dançado, a filha de Lamya agradou ao sultão e aos convidados. Então o rei disse à jovem: «A tua fama é humilde para com a tua arte. Pede-me o que quiseres e eu to darei». E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino». Ela recolheu a vista para o chão e ponderou. Pedindo licença para se retirar, dirigiu-se à outra mesa, onde estava a mãe e perguntou-lhe: «Mãe, que hei-de pedir?». A mulher reflectiu: andava inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só era necessária. Num murmúrio, interrogou a filha: «Salomé, tu amas-me?». «Senhora, tu sabes tudo: tu bem sabes que eu te amo!». «Então, salva da escravatura aquele que eu amei: porque ele é, em verdade, teu pai». A rapariga desprendeu um grito brevíssimo, que intrigou os presentes, aguçando-lhes a curiosidade. A filha observou os olhos da mãe: e soube que ela não mentia: suplicava. Recompôs-se e dirigiu-se ao sultão: o noivo, orgulhoso, pensava no que ela tomaria. «Senhor, entre os escravos que meu pai, como dote, vos ofereceu, há um, chamado sebastião. Não tenteis compreender os meus motivos: seria como procurar as regras de uma dança. Mas, se quereis ser fiel, como certamente sereis, à vossa palavra, soltai esse homem e deixai-o partir». E assim sebastião, rei de portugal, ganhou a sua liberdade. Apenas salomé, das duas mulheres, o conseguiu ver ainda antes de partir. Pediram-lhe que identificasse o escravo para o libertarem. Quando o viu, mandou dispersar os guardas. Estavam a sós. Ele olhava-a, incompreendendo a sua liberdade. Ela contemplava-o, num esforço insano de registar os traços daquele corpo e rosto. Sorriu ao ver-lhe as mãos, e perceber donde as tinha herdado. Levantou a cara e observou-o de frente. Com a mão esquerda, subtilmente, afastou os cabelos, compridos e desgrenhados, para lhe ver melhor a testa e as têmporas. Sussurrou, quase inaudível, «Pai», e beijou-o violentamente, engasgando os seus lábios nos dele, como querendo compensar naquele êxtase catorze anos perdidos. Largou as suas duas mãos do rosto dele, agarrou-o pelos pulsos, disse adeus - e desapareceu. Sebastião não as tornou a ver jamais. No porto, contou-me, encontrou uma embarcação para portugal. Durante o mediterrâneo, escreveu versos como espantalho da tristeza: "A vida a bordo é uma coisa triste,/Embora a gente se divirta às vezes./Falo com alemães, suecos e ingleses/E a minha mágoa de viver persiste" (sebastião veio mais tarde a emprestar esta estrofe a pessoa. este, querendo-a usar mas sentindo-se incapaz de assinar algo que não era seu, criou para o efeito um heterónimo. o texto teve um sucesso franco, e o sá-carneiro, a quem ele tinha dedicado o poema, acabou por o incentivar a escrever mais assim. a modos que contra vontade, viu-se portanto forçado a continuar o personagem. a verdade, porém, era que não gostava daquele estilo, que criara apenas para não destoar muito do fragmento sebástico. depois de algumas tentativas falhadas, acabou por declarar que o opiário era poema único de uma primeira fase de álvaro e, anunciada assim a solução de continuidade, avançou com o engenheiro para o futurismo, corrente que sempre lhe era mais cara). Passeava pelo convés ausente, e foi lembrando-o que um passageiro escreveu séculos mais tarde num livro sobre uma baleia branca: "Resguardem-se de alistar nas vossas pescarias atentas qualquer rapaz de rosto magro e olhar profundo, propenso a meditações inoportunas e que se oferece levando na cabeça o Fédon em vez de Bowditch. [...] Estas advertências são também necessárias porque hoje em dia a caça à baleia constitui um asilo para muitos jovens românticos, melancólicos e ausentes, desgostosos com os penosos problemas do mundo..." (35). A sua alma ocupava a sua mente que paralisava o seu corpo com recordações da filha e mãe. O barco acabou, como estava previsto, por desembarcar em lisboa. Ao sair, ensopado de memórias, um homem agarrou-o violentamente pelo braço. Com a outra mão segurou-lhe o queixo, observando-lhe a fuça dos vários lados. Remexeu-lhe os cabelos e declarou triunfante: «É dom sebastião!». Pela primeira vez desde há vinte e um anos, sebastião recordou o seu estatuto real. Tinha-se esquecido de que o país onde desembarcara era, em última análise, seu reino: pouco ou nenhum era contudo o seu desejo imediato de o governar. O silêncio de sebastião à exclamação do homem começava a fazer este último duvidar. O velho do restelo abanou por fim a cabeça, reprovando, e comentou: «Oh, esqueça... não é manhã nem está nevoeiro», e com isto abandonou-o. Deambulando, meditando no estranho episódio, sebastião chegou a uma taberna. Sentou-se sem pedir nada. Reflectiu. Parte de si duvidava que o aceitassem como rei depois de alcácer-quibir. Havia, de resto, que ser reconhecido e fora o velho homem (sebastião não sabia que era camões) ninguém o parecia identificar. Não sabia também como seria recebido: regressar ulisses vinte anos depois a um país era achá-lo diferente. No seu lugar, congeminava como é que, sem atena, se iria transformar num mendigo para descobrir os leais do seu reino. Ocupou-se de escutar as conversas humanas. Dois homens, mesmo ao lado dele, discutiam com ardor o que parecia ser uma novidade. Pelas linhas iniciais do diálogo entendeu, facto espantoso!, que portugal estava dominado pelos filipes. A ideia incutiu-lhe uma certa esperança: se se confirmasse essa situação, o seu regresso seria, queria-se convencer disso, bem aceite, garante da restauração da nação (sebastião não sabia que bandarra já tinha profetizado que isso sucederia pela mão de um joão). Continuou a escutar. Pelo que conseguia compreender, certo manuel de sousa, recusando-se a abrigar sobre a sua casa espanhóis, tinha-lhe pegado pelo seu punho fogo. Alguém identificou essa casa como sendo a de dom joão de portugal. O nome despertou memórias a sebastião: lembrava-se bem desse nobre, e trocara amenas palavras com ele. Era um homem valente e sábio: alas, a lança moura ferira-lhe o lado e matara-lhe o todo. Madalena de vilhena (recordava lentamente a genealogia do amigo), diziam os dois lisboetas, era a mulher desse tal manuel: a viúva tinha, portanto, voltado a casar. Lentamente, no seu espírito foi-se delineando um plano. Introduzir-se-ia na família apresentando-se como o defunto joão de portugal. Não planeava demorar muito o seu teatro (garrett ainda não tinha nascido), mas mantê-lo-ia umas aristotélicas vinte e quatro horas que, estava convencido disso, seriam suficientes para ter uma imagem suficientemente razoável de como seria recebido em portugal se se apresentasse amanhã perante as cortes reclamando o trono. Apurou de novo o ouvido, procurando saber a casa para a qual o casal se modera na sequência do incêndio. Decifrando a morada, pôs-se a caminho. Ao chegar à porta, parou: era necessário inventar um passado para os vinte e um anos de ausência de dom joão. Olhou em volta e rapidamente concebeu uma ficção de pergrino (não era também importante detalhar muito a coisa, pois não teria de suportar o disfarce mais que um dia). Pediu então para ser recebido pela senhora e madalena deixou-o entrar. A conversa, como é do conhecimento geral, correu francamente mal. Sebastião não sabia que o casamento já tinha dado frutos e a existência de uma rapariga com pouco menos da idade de salomé perturbou-o profundamente. Já com madalena fora, jorge perguntou-lhe: «Romeiro, romeiro! Quem és tu?». Percebendo que não o reconheciam, sebastião triste murmurou como um ulisses descontextualizado: «Ninguém». Para ser coerente, ainda foi cumprimentar telmo e tentar urdir com ele uma solução para a mentira, mas alea iacta est e a miúda morreu de vergonha. Abandonou a casa e os mortos, e foi desiludido para os portos de círdan onde embarcou. Em avalon achou paz e conversa, entre os outros reis que as nações esperam (notei que sebastião desenvolvera uma amizade especial por mahdi, possivelmente por lhe lembrar alcácer e as duas mulheres). Aborrecido da entrevista, perguntou-me se tinha mais perguntas: desabituara-se ao trato com os mortais. Não o censuro: desde pessoa que não falava com nenhum. Tom hagen, disse-lhe que não havia mais ninguém para o ver, e ele, padrinho, sentiu-se feliz por poder ir enfim ao casamento da filha. Levantou-se do banco de jardim e apoiado na bengala foi-se sentar na mesa debaixo da macieira onde frederico o primeiro o esperava com um xadrez. Ao lado deles, artur praticava whist com ogier, matjaž e wenceslaus 1. Deixei os imortais em eressëa (a que outros chamaram elísio) e regressei pelo caminho que são brandão (o falso, que o verdadeiro ficou em mú, onde corto maltese o encontrou) tomou quando voltou de mag mell. Hoje, mesmo que me pedissem que reescrevesse a rota, desconheço-a e ainda que recordasse, desde bilbo bagins que não partem mais barcos para aman.
Religio Medici, I, 59, Thomas Browne
Therese conduziu-me a uma pequena sala, onde guardava o irmão. «Ele está já mesmo muito afectado, há dias em que não diz uma única palavra. Ainda anteontem, aliás, veio cá herr steiner e ele nem notou a sua presença, para tristeza de rudolf». Quando entrámos no quarto, nietzsche estava a ver kubrick, 2001: odisseia no espaço. A irmã disse-me para me sentar numa cadeira na varanda e foi-lhe desligar a televisão. Trazido por therese, nietzsche aproximou-se na sua cadeira de rodas. «Friedrich, este herr veio de muito longe (se tempo e espaço são a mesma coisa, como ensina einstein) para falar contigo. Tem isso em consideração e conversa com ele». O filósofo permaneceu calado. A irmã começou a desdobrar-se em desculpas, mas eu disse-lhe que não se preocupasse e que me deixasse a só com o irmão. Ela retirou-se e então nietzsche expirou um guten tag. «Não sei qual o sentido de termos uma conversa que já tivemos», acrescentou. «Se não a tivermos agora, porém, significa que nunca a tivemos», repliquei. Nietzsche sorriu: «Bem observado. Não deixaria contudo de ser interessante não termos uma conversa com a justificação de a termos tido - e ela nunca ter porém acontecido». «Vistas as coisas, só aconteceu outrora aquilo que nós fazemos acontecer agora. O passado é então um produto do presente, e as nossas decisões não actuam sobre o que há-de vir, mas sobre o que já foi», comentei, amando o paradoxo. «Isso faz quase parecer a tese do eterno retorno uma prova do livre arbítrio», riu-se o alemão, respondendo com outro oxímoro. «Alguma vez, porém, as coisas tiveram todas de acontecer um primeiro tempo e nesse primeiro mundo fomos livres: e eu escolhi falar contigo», procurei defender-me. Ele retorquiu: «Se não nos lembramos desse começo, não é porque a idade nos contaminou a capacidade da lembrança, mas porque ele nunca existiu». «Mas se tudo é um eterno retorno, então o tempo é circular: e todas as circunferências têm necessariamente um começo para o compasso. Para que o tempo não tivesse começo, tinha de ser uma recta.», insisti. «E é: o arco da circunferência do círculo máximo é uma linha direita». A sua observação desconcertou-me: a conversa, aparentemente racional, que tínhamos mantido até ali fizera-me esquecer os comentários que circulavam sobre a saúde mental do filósofo. Mas aquela observação nova, digna de um aforismo de heraclito (e quanto não o amava frederico!), superava não os limites do bem e do mal, mas da razão. «Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, 13. Podes confirmar». Permaneci calado, tentando balançar as coisas. «O tempo é um círculo disfarçado de recta, e por isso temos esta falsa impressão de linearidade». Senti que o segundo wittgenstein poderia ter denunciado aqueles jogos de palavras, mas eu não fui capaz de o fazer (talvez por isso não fui nunca wittgenstein). Nietzsche olhou para a paisagem, calmo, mas desiludido. «Julguei-te, erro meu!, diferente: pensei que compreendias. Afinal, não passas da minha irmã. Ainda me lembro do primeiro dia em que lhe anunciei o sonho do eterno retorno. Era setembro (o ano era 1881), tinha passado o verão em sils-maria, onde como um siddharta me atingiu a revelação da roda do tempo. De alguma forma, temia a reacção que a minha irmã pudesse ter à ideia, mas consolou-me a certeza de que eu já lhe tinha anunciado a notícia cem vezes antes e isso não travara o curso do mundo. Resolvi regressar à alemanha sem aviso, para ser ainda maior a surpresa. No dia de partir, escolhi bem a roupa (eu que, doutro modo, pouco cuidava da aparência). Quando já estava perto de casa, pude compreender a minha irmã, na cozinha, a preparar o jantar. Pé ante pé, fui-me aproximando da entrada. Bati à porta. Therese fui à janela da cozinha, para ver quem era, e quando me percebeu a identidade rejubilou. Correu para o hall (tirou o avental no caminho) e escancarou a porta, abraçando-me num ímpeto. Conversámos amenamente, até ser hora de jantar. Na refeição, por fim, achei ser o tempo conveniente de revelar a verdade. Levantei-me e expliquei que tinha algo a anunciar. Minha mãe e minha irmã, atentas, calaram-se. Foi então que eu declarei, solenemente, como um édito, a circularidade das coisas. De alguma forma, as duas mulheres pareceram desiludidas. A minha mãe confessou-me que esperava que eu fosse anunciar o meu casamento (como, se eu apenas conheceria lou salomé no verão do ano seguinte?) e a minha irmã que eu lhes fosse dar algumas prendas da suíça. Acabei eu mesmo por me sentir desiludido: foi então que deixei crescer o bigode». Aqui, o filólogo fez uma pausa.
«Os meus amigos também reagiram mal à ideia, achando-a desconfortável. Eu bem que procurava fundamentar a minha tese para esses espíritos cépticos com argumentos científicos: falei-lhes de poincaré e da simetria-t, mas pareciam indiferentes a essas coisas enquanto discutiam a nova medida de bismark. Senti-me um platão a quem na caverna desprezaram. Mesmo wagner abandonou-me. Resolvi escrever um livro: primeiro, a ingratidão dos meus amigos não devia fazer-me esquecer que esta novidade tinha que ser proclamada ao mundo (por isso dediquei o livro a todos e a ninguém); segundo, entre alguns leitores poderia achar compreensão. Para tornar o livro mais interessante, fabriquei-o como poesia e criei um heterónimo a que chamei zaratustra. Cedo, porém, me apercebi do erro da minha esperança, e quando cheguei à quarta parte de also sprach, não fizeram mais que quarenta cópias dela. Uma súbita dor acometeu-me: eu não tinha falhado na minha missão apenas daquela vez - eu tinha falhado setenta vezes sete e falharia ainda igual número no futuro. Uma terrível angústia da dimensão da minha derrota ocupou-me a alma, e foi por essa altura que alguns me começaram a achar louco. Comecei a escrever muito (na ausência de pessoas com quem falar): não recebia mais que o desprezo dos homens, e mesmo a minha irmã (a quem eu queria tanto bem!) arranjou marido e fugiu de mim para o paraguai, no outro canto do mundo. Desesperado, apontando para mim, gritei por fim do meu refúgio eis o homem, em latim, para que universalmente pudesse ser entendido: mas continuava a ser feito de celofane. Dizem que eu sofri então um colapso, e que a partir daí começou a minha loucura de facto. Mas isso é o mesmo que dizerem que o tolstoi estava louco quando embarcou para astapovo só para não terem de suportar a verdade do que ele escreveu nos seus últimos dias. Talvez seja melhor assim, estar mascarado de louco (eu sempre gostei do teatro e de diónisos). Os homens já se resignaram a não aceitarem a verdade. Até um certo ponto, não os censuro: sonho às vezes mesmo que seria bom ignorar, ser, olhe, como a minha irmã, e talvez sobre essa base fabricar a minha felicidade. Mas cheguei à conclusão de que ser ignorante só é feliz para os sábios: o ignorante jamais se apercebe desse prazer de desconhecer. Aceitei ser o atlas que no mundo suporta a verdade do eterno retorno: a decisão fez-me corcunda. Este peso, das schwerste Gewicht...», deixou-se suspirar. Olhei para nietzsche: não era, de facto, feliz, e parecia nunca ter recuperado do parto da verdade. Estava abatido, melancólico e, julgo, se eu não estivera presente, teria chorado. Creio que quando rafael pintou heraclito estava a pensar em nietzsche e na sua profunda tristeza, mas só munch (que pintou nietzsche) percebeu esse aparte do pintor italiano. Regressar não era nunca fácil: e para ele todo o instante era um regresso a um passado que, porque não acreditava em platão, não conseguia desenterrar pelo exercício da reminiscência. Estranhei no entanto aquele seu desânimo e interroguei-o: «Mas não disse, num cântico de alegria, zaratustra: "Era então isto a vida? Então vamos recomeçar!"?». «Sim. E logo por baixo acrescentou: "Mas semelhante máxima é uma fanfarra"», e quedou-se. Resolvi não insistir mais no assunto: ficámos calados algum tempo. De repente, ele levantou-se e, andando de costas como os caranguejos (era a aplicação em tudo do sonho do eterno retorno), recolheu na sua secretária um caderno, que me passou para as mãos: «Algumas traduções de heraclito que tenho feito», apresentou. Por um momento, reflecti na diferença daqueles dois espíritos e percebi que, de alguma forma, naqueles exercícios de versão, nietzsche devia procurar consolo, como pessoa em caeiro. Para heraclito, o rio nunca era o mesmo: para nietzsche, a tragédia era o rio e todas as coisas serem sempre o mesmo e repetirem-se sem originalidade. Ele concebera o mais fantástico dos regressos: mais que o regresso no tempo, o regresso do tempo. Outros tinha percorrido grandes distâncias para poderem regressar: ele podia estar numa cadeira de rodas e ter um sentimento de regresso muito maior do que o desses aventureiros, porquanto regressava ali a vez mil. Nietzsche aligeirou a conversa: «Quais são os seus interesses?». Respondi-lhe que gostava muito da literatura e do cinema. «Cinema.», exclamou (mau grado o ponto final). Contou-me que o seu filme favorito era o dia da marmota com o bill murray e calou-se outra vez. Foi de cadeira de rodas até ao televisor e retomou o visionamento do filme (tendo sabido que eu gostava de cinema, calculo que deva ter considerado que não me ofenderia por cortar a conversa para ver kubrick: de facto, não me ofendeu).
Era já a sequência final: deixei-me ficar. Naquele dia, porém, a cena revestiu-se de um novo significado e como que julguei nela decifrar uma alegoria: de alguma forma pareceu-me que nietzsche, na sua cadeira de rodas, não era mais do que david, estendido no seu leito, estendendo a sua mão, cansado dos anos e sozinho, para o monólito negro, com a diferença subtil que nietzsche sabia que tocar o ia, enfim, moldar de novo em embrião. Anos depois, revendo estes acontecimentos, considerei que, de facto, devia ser isso que nietzsche me devia estar a tentar comunicar e que ele voluntariamente e propositadamente interrompeu a nossa conversa, só para a continuar na linguagem dos filmes. Pareceu-me incorrecto dizer mais algo (mesmo uma despedida) depois daquela nossa comunicação secreta. Saí do quarto e agradeci a elisabeth a oportunidade. Nietzsche viria a morrer um ano depois, em 1900.Lc 15, 17-20








