terça-feira, agosto 28, 2007

Bloguística §4: Discurso sobre as Variedades do Regresso

"E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar."
FMI, José Mário Branco
a/c Partir Para Ficar, Linda Martini

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Regresso I: Ulisses

"Então, com mansa admiração, como se descobrisse uma coisa perdida e há muito esquecida, [...] balbuciou estas palavras: «Argos, cão de Ulisses»."
O Imortal, Jorge Luis Borges

Quando falei com ulisses, ele mesmo não recordava sequer que tinha partido (condição essencial para regressar). Interroguei penélope (estava sentada ao lado dele). Ulisses, atarefado em ser marinheiro, compreendia-se que, no ardor da artimanha, entretido, tivesse nem dado pelo desaparecimento daqueles anos na sua cronologia como rei de ítaca. A mulher, porém (queria acreditar nisso), ela, presa a um palácio de chão de terra batida, sem outro ofício diário que olhar o mar (thalassa, thalassa!) por cima do tear em que não fabricava, como helena, em tróia, o cantar dos homens sobre eles, ela, estava certo, haveria de recordar os dias, até ao pormenor dos segundos. Inicialmente, reagiu com estranheza e, tal como o esposo, pareceu não compreender a pergunta. Insisti, li mesmo algumas passagens de homero, como que para lhes avivar a memória. Ao recordar aquele passo ("E com os olhos cheios de lágrimas fitava o mar nunca vindimado.", canto 5, 84), ulisses esbracejou os olhos e murmurou, dentre os lábios «calipso». Sobre essa memória procurei reconstruir quantas mais ainda lhe sobravam. A mulher começou também a evocar imagens dispersas, como se diz acontecer antes da morte (falou inclusivamente da primeira noite com ulisses, e da sua boca as palavras saíam, quando recordava, leves e louras, e contava, com amor disfarçado de timidez, o dedo de ulisses que lhe desapertou o peplum e a deixou nua). Ulisses lembrou-se que, em tempos (deu para os anos da odisseia a data da viagem de magalhães, confusão compreensível dada a idade, que é a lepra da memória), depois de uma certa guerra (tinha dificuldades em especificar qual, tendo sugerido ser ou lepanto ou trafalgar: curiosamente, ambas batalhas marítimas, notou um amigo meu), tinha, de facto, partido em viagem, tendo, no seu dizer, chegado, assim me assegurava, à índia (veio mais tarde a saber, explicou-me, quando colombo repetiu a viagem que ele já tinha feito, que afinal a índia era só a américa, tendo-se mostrado, quando lho contaram, mais ou menos desiludido). Quando me quis falar de cila e caríbdis, acabou por me contar a estória do adamastor. Da descida aos infernos, tinha uma vaga cintilação de aquiles (mas quando me detalhou a biografia do herói, vi que descrevia alexandre). Recordava contudo distintamente as três mulheres: Circe, Calipso e Nausícaa. Só me falou delas, porém, quando penélope foi levada da sala (aparentemente para lhe darem banho). Circe foi, das três, a mais amada, porque a primeira: amou-a e deu-lhe descendência. Recordava dela muito as flores: não era em vão que foi na ilha dela que hermes foi achar moli. Circe, dizia-me, era uma grande jardineira. Quando acordava, não era raro ulisses encontrá-la (ela que acordava com o sol como o orvalho) de luvas brancas e o cabelo longo e castanho apanhado, de avental, a cuidar de um canteiro de orquídeas. Algumas plantas e ervas, não sabendo a sua espécie, ulisses perguntava-lhe pelo nome delas, e circe respondia-lhe que eram a cura de doenças ainda desconhecidas dos homens de então, doenças que só o desembrulhar dos séculos revelaria: naquele jardim crescia a panaceia de todos os males futuros, mas o futuro esqueceu circe, e irremediavelmente perdeu a sua ilha. No final da entrevista, quando me despedi dele, chamei-o pelo nome, e pareceu-me zangado. A responsável pelo lar explicou-me depois que já há muito que ele não responde senão por fernão mendes pinto.


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Regresso II: Platão

"Assim regressou, finalmente, à terra da sua infância. Estava desolada e vazia e as pessoas que lá se encontravam eram poucas e grosseiras..."
Os Filhos de Húrin, J. R. R. Tolkien

Gulliver não errara a traçar o mapa de balnibarni. Descobri rapidamente a academia, único edifício intacto entre as ruínas, de resto. Entrei e perguntei ao primeiro cientista com que me cruzei pelo gabinete de platão. O homem, porém, renunciara, por comodidade linguística, ao uso das vogais, pelo que se tornava incompreensível. Valeram-me os seus gestos. Depois de passar uns corredores, bati à porta: houve um certo intervalo de tempo até o filósofo me aparecer. Quando me viu, correu como que assustado para a secretária, perguntou-me o nome aflito, o apelido, e registou os dados nervosamente num caderno de pele alfarrabista. Mais descansado, estendeu-me então a mão e pediu-me que lhe chamasse arístocles, o nome da sua juventude. Confessava-me que se chamarmos muitas vezes pela mesma palavra, como fazia o vergílio ferreira quando ensinava o bexiguinha, se ela perde o significado, não é porque o perca de facto (aqui, olhando-me no rosto por meio dos seus óculos grandes e redondos, recordou-me, com um sorriso, a lei de laplace), mas porque a sua essência, como um ovo a que se quebra a casca mole, se esvazia sobre o real, contaminando-o, alterando-o. As pessoas, sussurrava-me platão, desconfiavam dessa sua ideia (talvez, tentava justificar na sua plácida compreensão, porque usam tanto as palavras que têm medo que se possam ferir nelas enquanto ferem os outros), mas, de resto, as pessoas também não acreditavam que se podia colher no sonho uma flor azul como novalis ou, como sandman, arranjar uma garrafa de chateau lafitte 1828 para oferecer a um amigo antes de se descer ao inferno. Platão cria pois que, se todos o tratassem por arístocles, o nome sob o qual descreu da democracia quando viu o mestre morrer, a palavra acabaria por infundir sobre a realidade a juventude perdida. Facto era que platão se mantinha satisfatoriamente jovem, com pouco mais que uma curta barba triangular pelo prazer de a cofiar. Explicou-me o porquê da sua pressa inicial: como nada era mais que reminiscência, convinha apontar sistematicamente tudo com o qual nos cruzávamos, porquanto era mais um pedaço de eternidade que recuperávamos para a nossa alma. Os seus cadernos (cuja colecção só me parece comparável à dos diários de john doe descobertos por freeman e pitt) ocupavam várias estantes. Dispôs-se a ouvir-me e interroguei-o então sobre o regresso à caverna. Sentiu-se visivelmente incomodado, mas acedeu por fim a narrar a coisa. Lembrava-se bem do dia em que saíra. Não sabia como as correntes se tinham desprendido: isso era um facto, ali para ele aceitar. O movimento foi-lhe assaz complicado, pois os músculos tinham atrofiado no cativeiro e sentia-se como um neo espetado de agulhas para recompor os tecidos. Como uma beatrix kiddo num jipe, ousou primeiro mexer lentamente os dedos dos pés e daí foi-se reconstruindo. Viu então os homens e a lareira: mas isso não o ajudou a perceber o que eram as sombras - e durante a sua escalada até à superfície, cria ainda na realidade das pinturas rupestres andantes da caverna. Foi então que uma furiosa luz lhe penetrou os olhos como um saulo a caminho de damasco - e ele viu o sol, como um galileu: e percebeu que a terra girava em torno da estrela e não o contrário, que as sombras eram espelhos das coisas verdadeiras e não o inverso. E viu o cavalo e a rosa (platão, de emoção, começou a chorar). Aqui, o filósofo contou-me a verdade: como um ulisses na ilha de circe, esqueceu ítaca e permaneceu com a amante (a realidade) alguns anos. Afastou-se da caverna e quando não a viu, como um berkely, considerou que ela jamais tinha existido. Uma princesa, um dia, descobrindo-o no rio, recolheu-o e pediu ao pai que o recebessem no palácio e o educassem como seu irmão (a princesa, na realidade, tinha-se tão somente apaixonado por ele). Os homens deram-lhe um novo nome e chamaram-lhe moisés. Aprendeu os preceitos humanos e a beleza da mulher. E um dia, querendo saber o nome de todas as coisas, perguntou à sua irmã o nome do maior sentimento que o coração humano podia experimentar, e ela respondeu-lhe «amor». E doravante platão soube que a amava. Namoraram longamente, com a paciência com que namoram estalactites e estalagmites: ela vinha (ele sabia isso, apesar de ainda não terem naquela altura inventado o cristianismo) nitidamente do céu, e ele literalmente da terra. Por fim, combinaram o casamento e o faraó alegrou-se pelo dia em que a filha lhe pediu que resgatassem o rapaz. Ela fechou-se então no quarto, segundo o costume daquelas terras: e no dia em que acabasse de tecer o seu vestido de noiva, como uma penélope fabricando a teia honestamente, na manhã seguinte realizar-se-ia a boda. Impossibilitado de a ver, arístocles passeava pelos bosques e campos em redor da cidade, consumindo os seus dias na espera com as plantas (nesse tempo, em que o homem ainda fazia parte integrante da natureza, e não lhe era inimigo e estranho, também as nuvens se calavam na espera da linha última do vestido da princesa, e aguardavam as suas lágrimas para como grãos de arroz as deixarem cair no dia do casamento - desse tempo mítico, alas!, sobrou apenas o provérbio). Um dia, porém, passeando a cavalo, platão desembocou na caverna donde emergira toupeira ao mundo: e em revê-la, recordou tudo. Uma súbita urgência acometeu-o, e relembrou-se de quantos continuavam soterrados de mentira. Desceu do animal, e enterrou-se caverna adentro, pelos túneis cujo labirinto já não se recordava. Acabou, eventualmente, por achar os seus antigos irmãos e pela primeira vez viu-os: e percebeu como eram feios, desfigurados pela mentira, separados da luz. Um súbito nojo apoderou-se dele e por momentos hesitou na sua missão, como um jonas: mas não tinha uma baleia em que se enterrar para fugir, e por isso pregou em nínive: a sua voz irrompeu pela caverna como uma coisa estranha, ecoando. Pediu-lhes atenção e delicadamente procurou exprimir-lhes a verdade. Viu nos rostos deles a incompreensão, e então se lembrou que falava na língua dos homens da superfície (os übermenschen), da qual o dialecto dos homens inferiores não é mais que uma corruptela: eles não o compreendiam (também a língua, sublinhava-me platão, tem um arquétipo no hiperurano). Sentou-se, desiludido, entre os prisioneiros, e em vão procurou relembrar a sua linguagem. Pelo esforço dos meses, foi reaprendendo o calão até se sentir preparado para pronunciar o seu sermão aos peixes. Colocou-se então frente às figuras de sombra que corriam pela parede e iniciou. Os homens e mulheres escutaram-no com atenção e, quando por fim ele concluiu, cuspiram-lhe o desprezo sobre o rosto, por se ousar a proclamá-los todos loucos, crentes de fantasmas. Insultaram-no na língua baixa (só essa permite a fealdade das palavras) e as suas ofensas massacravam-no como um orestes a quem são dadas ouvir as vozes das erínias da consciência. Fugiu dali e escalou para a luz, mas era noite quando descobriu a superfície. Correu pela floresta, rasgando nos espinhos e nas árvores o seu robe de josé de mil cores. Em chegando às margens da cidade, viu uma lenta procissão e um poeta que elegiava. Escondido atrás de uma árvore, percebeu que era um enterro: o seu coração assustou-se: que amigo seu, que ali deixara, seria? Foi então que nitidamente, por entre as ladainhas, percebeu o nome da sua noiva e sua irmã. Baixaram o andor e um cadáver desceu à terra: o último lugar onde lhe faltou procurar pelo seu amado, e donde ele, por fim, fugira.

No dia em que ele se submergira de novo, nesse dia a princesa desceu a escadaria circular de trezentos e trinta e três degraus da torre onde compusera com paciência o seu longo vestido de noiva, cujo final da cauda permanecia na sala onde fiara quando o seu pé pousava já a entrada. De imediato, muitos correram a procurar o noivo - mas nenhum o descobriu. A princesa, confiante no amor dele, não se afligiu, e considerou o atraso ser só um atraso, na honestidade da realidade. A noite passou e no dia seguinte, o do casamento, ninguém encontrou moisés. Procuraram pela cidade e pelos arrabaldes, mas em vão. Os dias foram-se volvendo, até formarem uma semana. E então a princesa declarou perante o povo e os pais, imersa em tristeza, que recomeçaria o caminho para o topo da torre: subiria um degrau por dia e, quando atingisse por fim a cela onde, antes dela, dánae concebera, o quarto onde pacientemente urdira o inútil véu que trazia sobre o corpo, chegando aí, se não houvesse novas de moisés, olharia ela mesma pela janela durante um dia e uma noite e, se no fim dessa vigília não tivesse achado rasto dele nem pegadas suas no horizonte, cortaria a cauda do seu vestido com a tesoura com que o fiara e precipitar-se-ia em seguida da torre. A ameaça fez os esforços redobrarem, e rapidamente se mobilizaram grandes forças para saber o paradeiro de platão. Os reis em pessoa dirigiram-se aos grandes reinos vizinhos, mas ninguém sabia do seu genro. Como telémacos, deambulavam sem respostas. E a cada dia, cumprindo a sua promessa, a princesa subia mais um degrau. Quando se completou perto de um ano, e os dias se perfizeram, a princesa da sua torre contemplou as terras em redor e esticou a vista até ao mar, procurando os navios. A sua mãe, aflita, saiu de casa e, depois de não ter achado resposta nos homens, começou a interrogar as coisas: perguntou à rocha donde nascia o rio se sabia de moisés, e ela chorou, murmurando que não; perguntou ao único pássaro capaz de voar até ao topo da torre da princesa, ele que via tão longe, mas também ele não sabia de platão; perguntou à árvore mais antiga do bosque, e na sua sabedoria, a árvores desconhecia. A todos interrogou e de todos ouviu a mesma resposta. Por fim, no caminho para casa, nas últimas horas do dia, um azevinho, vendo-a passar, disse: «Sei o que buscas e sei onde está; porém, recuso-me a revelar-te o seu paradeiro: um dia recusaste um beijo sob o meu tecto, e ofendeste-me». A rainha recordou: num inverno, de facto, sobre um azevinho, recusara, ainda menina (vivia inclusive ainda na sua terra-natal), beijar um pequeno rapaz que insistia em lhe fazer a corte, mas de quem ela pouco ou nada gostava. A rainha, lembrando-se da sua culpa infantil, atirou-se aos pés da erva: «Por favor, a minha filha morrerá se guardares esse segredo contigo. Desonrei-te, é verdade, mas era ainda criança, sabia mal as regras do jogo do mundo. E, de resto, que tem a minha filha a ver com a minha culpa? Adão e eva e o pecado original são fantasias falsas de outros séculos ainda por vir». O azevinho, orgulhoso como um deus, insistiu na sua recusa. Toda a noite, por todos os argumentos, a rainha procurou convencê-lo a, pelo menos, indiciar algo, uma notícia breve que pudesse, contudo, salvar a sua filha. O azevinho persistiu na teimosia. Havia um desejo secreto em todos os corações de que o sol não se levantasse, para que a noiva não caísse. A estrela, porém, não obedece à vontade humana, e, quando os galos o anunciaram, irrompeu. Quando um raio de sol, penetrando pela janela, fez cócegas no rosto da princesa, esta despertou os olhos e a vontade, firmou a resolução e encaminhou-se para a janela. Em plena majestade, iluminada como se fosse um ser diáfano, todos a contemplaram, receptáculo virgem do calor solar. De olhos fixos, ela buscou, com o tacto, a tesoura: achou-a e cortou de uma raiva só a cauda do vestido. Não lhe corria uma lágrima pelos olhos. A mãe, vendo tudo, num acto de desespero, lançou-se escadas acima, aos gritos. Ela sentou-se no parapeito (a multidão, em baixo, observava). Lentamente, pôs as pernas para fora, ficando como que à beira de um rio invisível, molhando-se. Ficou naquilo um certo tempo. Por fim, já inesperadamente, atirou-se súbita, quando a mãe entrava no quarto. O corpo precipitou-se e quebrou-se no chão, desfigurando-a e soltando o sangue. O pai correu para a filha, sem coragem de a tocar. A mãe desceu a torre e abraçou-a nos braços, manchando-se do sangue dela. Marcou-se o enterro para daí a três dias. O pai calou-se, e não falava. A mãe assumiu então as rédeas do poder, desgovernada. Ordenou que cortassem a cabeça a todos os galos, que jamais deviam anunciar as manhãs. A torre, mandou que fosse selada e jamais aberta. Mas a sua vingança mais terrível foi contra o azevinho. A rainha ordenou que cobrissem todos os azevinhos do reino (que eram, como todos sabem, brancos, nesse tempo de outrora) com o sangue da sua filha. Ela mesmo se dirigiu ao fatídico azevinho com que falara na véspera e baptizou-o com estas palavras: «Cheira o sangue daquela que mataste. Doravante, todos os da tua raça carregarão a tua culpa, tal como a minha filha teve de expiar a minha». E assim o azevinho se tornou vermelho, mas dizem os mais incrédulos que, se ainda hoje preserva a cor, não é certamente por ainda se recobrir do sangue da princesa, mas pela vergonha eterna do seu acto. Platão nunca soube nada disto: soube apenas - e isso bastava para a sua desgraça e miséria - que a sua irmã e amante morrera, e a culpa era dele (sussurrava-lhe o coração essa certeza). Esperou que todos se retirassem e se fechassem nas suas casas para se deitar sobre a campa rasa e aí carpir os seus erros. Perdera os dois mundos: o que amava e o que odiava. (Mais tarde, Shakespeare dramatizou este episódio do enterro em Hamlet). Deambulou perdido, como um caim, a leste do paraíso, até encontrar um país. Perguntou o nome: responderam-lhe Hélade. Resolveu fixar-se aí e dissolver as mágoas na filosofia: começou a ensinar mas, tímido como era (e lembrando que tudo, neste mundo, eram sombras, e cabe ao homem descobrir os arquétipos), criou uma personagem para divulgar os seus ensinamentos. Depois de alguma indecisão sobre o nome a dar-lhe, resolveu chamar-lhe sócrates. Criou para ele toda uma vida e, muitos séculos mais tarde, um fernando, inspirado por ele, resolveu imitá-lo e criou alguns heterónimos também. Já cansado, especialmente quando as pessoas se começaram a virar para um discípulo seu (infelizmente bastante menor), resolveu desaparecer. Foi procurando outros países, então, que eventualmente fora dar a balnibarbi. Sim, tinha conhecido gulliver, e lembrava-se dele, ainda que gulliver se tenha esquecido de o mencionar no relato das suas viagens. Na realidade, explicou-me, pediu isso especialmente a lemuel, o qual acedeu e guardou silêncio. Disse-me que não me preocupasse, porque a mim não me exigiria o mesmo voto. Confessou-me que, se se retirara para aquela academia decadente, era porque, pelo menos ali, podia descansar em paz, sem se sentir rejeitado. Pessoalmente, porém, creio que platão procurava expiar no meio daquela imundície física e intelectual os seus pecados, a ofensa inominável que cometera contra o mundo das coisas belas e a destruição irrecuperável do arquétipo do Belo (explicou-me que toda e qualquer referência a esse arquétipo nas suas obras é um acrescento dos seus discípulos: ele bem antes de ser grego sabia que o Belo estava enterrada numa noite que nenhum mapa registava). A falta dessa arquétipo, aliás, era uma problema metafísico que o obcecava (esta era a sua perífrase para traduzir o seu sofrimento contínuo, a dor de um amor destruído). Ao começar a falar destas coisas, platão tornou-se mais distante, no exercício da reminiscência da amada. Achei por bem deixá-lo sozinho e, discretamente, abandonei o gabinete. Imagino que ele jamais se apercebeu disso.


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Regresso III: D. João de Portugal

"São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando."
Quarto/As Ilhas Afortunadas, Fernando Pessoa

A Leandro R. Ribeiro
Os árabes, contou-me, não eram insensatos: sabiam que matar o rei acarretaria uma violenta reacção diplomática que, num tempo sem nações unidas, acabaria por resvalar para o confronto armado. Os mouros redigiram, nos dias imediatos à batalha, o dicktat de versalhes, acertando o valor das indemnizações que portugal deveria pagar. Entre outras reivindicações, exigiam o algarve e o alentejo, como uma alsácia-lorena. Em lisboa, quando chegou a carta com as condições de nikê, serviram-na de imediato ao cardeal (que sofria de alzheimer). O homem leu o documento e tomou até algumas resoluções, entre elas responder à carta. Devido à diferença de fusos horários, a missiva chegara já de noite e o padre resolveu deitar-se e deixar para o dia depois a eloquente réplica, cansado. No dia a seguir, porém, não redigiu a resposta, porque não se lembrava sequer (a doença, a doença!) de ter existido um ponto de interrogação. Em vão o sultão aguardou a obediência das suas exigências. Tardando em vê-las cumpridas, reteve o rei no cárcere, e este não teve força para alimentar outro desejo que não repetir fernando, infante santo de portugal. Quando o filipe enfim usurpou o trono, vagueando pelos papéis da burocracia de ser rei, encontrou, na secretária do cardeal, a carta árabe. Leu-a com atenção e ocorreu-lhe um susto: sebastião vivia. Nesse dia, sentiu sempre no assento real um desconforto, como uma ervilha debaixo de muitos colchões. Mesmo a mulher rejeitou-o no leito. A noite em branco fê-lo convencer-se da decisão: era necessário eliminar a carta, pelo que tratou do assunto incendiando-a (e assim se perdeu a narração da verdade, explicava-me). Sete anos perdurou o seu cativeiro e descreveu-me deles a monotonia dos dias. Havia porém, ressalvou, uma mulher. Quando ele lhe perguntou o nome, ela respondeu apenas que os demais prisioneiros lhe chamavam seisachtheia (o alijar do fardo), e ele, que não sabia árabe (nem sabia que a palavra era grega), percebeu o seu significado. Ele, contudo, deu-lhe o nome de isabel. Todas as semanas descia aos calabouços do sultão: há alegrias que só uma mulher pode trazer. A sua presença insuflava os homens e as suas palavras gotejavam dos dois lados da boca consolando-os. No vestido, que era branco, trazia os pães escondidos, e distribuía-os, embrulhando as suas mãos nas mãos dos prisioneiros, brincando ao amor. Entre todos, acabou por se afeiçoar a ele, talvez encantada pelo nome de isabel (o nome, quando ele a chamava, prolongava-se no ar, na suspensão da língua contra os dentes, destilando-se). A amizade entre eles, por caminhos irregulares, cresceu em amor. Ela era mais velha que ele, mas isso não a impediu. Criaram um jogo juntos para se amarem: durante os primeiros meses, ela ensinou-lhe todos os passos que se podiam dar dentro da cidade, do mercado árabe ao jardim já fora de muros. Com a minúcia caligráfica, descrevia-lhe, semana sobre semana, o pêlo dos camelos que latif, o vendedor, expunha na sua tenda, os metros exactos da altura do minarete e a tonalidade em que o muezzin chamava para a oração, ou a mulher bonita que todos os dias ia, com o véu cobrindo-lhe a face (e só deixando adivinhar os olhos belos, verdes-esmeralda), à fonte colher a água. Quando, por fim, ele sabia de cor todos os pormenores das coisas invisíveis por cima dele (confessou-me que a tarefa de aprender foi fácil), os dois começaram a passear juntos: ela chegava (sempre às quintas, na véspera do dia sagrado, como que para gastar a última oportunidade de ser profana), e, sentados os dois um ao lado do outro, as grades pelo caminho, sonhavam naquele dia visitar o beco escuro do bairro mais antigo da cidade, ou (porque estava calor) irem à fonte pública beber. Apontavam as coisas como crianças e teciam comentários íntimos e maledicentes sobre os transeuntes. Um dia, por fim, debaixo de uma laranjeira, ele pediu-a em casamento. Ela calou-se, corou, e correu da prisão para fora, deixando-lhe na mão a realidade. Durante aquela semana, ele ponderou o seu erro, até o súbito medo de ela, ofendida, não mais regressar lhe toldar o discernimento. Passava as noites ansioso e não dormia. Por fim, amanheceu quinta-feira - e ela veio. Viu-a primeiro ao longe, dando ordens aos guardas (donde lhe vinha o poder de, mulher, assim se impor?) e estes retiraram-se, deixando-lhe a chave. Ela apareceu então diante dele, e, rodando a fechadura, entrou. Os olhos dela emanavam uma serenidade solene, iluminando o rosto pálido de insónias dele. Levantou-se e procurou articular alguma redenção, mas ela poisou-lhe dois dedos sobre os lábios. Soltou o véu, que caiu muito lentamente no chão como com medo. Desprendeu então o seu vestido, e este genuflectiu-se a seus pés, largando-a nua. Ela descalçou-se do tecido e avançou para ele, enrolando-o no gesto de lhe tirar a camisa. Beijaram-se, libertos de grades que não os seus próprios corpos. A lonjura do dia amaram-se, e quando o dia adormeceu, ela, embalada no corpo dele, narrou-lhe o seu segredo: ela era a rainha, a esposa do sultão. Os olhos dele iluminaram-se de espanto e horror, e beijou-a para exorcizar aquele mal de alma. Percebera enfim a fuga inesperada dela no dia anterior e a impossibilidade de consumarem de outra maneira o seu amor senão assim. Ela voltou a vestir-se, penteou os cabelos e cobriu-os com o hijab. Com uma lágrima, trancou-o na cela. Chamou os guardas, devolveu-lhes a chave, e foi-se embora. Lentamente, o episódio chegou aos ouvidos do sultão, eventualmente deturpado. Nunca se conformara com a atenção que a mulher dispensava aos seus prisioneiros, menos cómodas ainda eram as despesas dela com os cativos (ouvira dizer que ela lhes levava alimento). Era mais grave, porém, aquilo que lhe narravam agora. Na quinta-feira seguinte, ordenou que o acordassem cedo e escondeu-se no corredor que conduzia aos calabouços, aguardando a esposa. Certo tempo depois, ouviu pegadas e sentiu no ritmo dos passos a cadência da mulher: revelou-se. Isabel afogou a surpresa e manteve a compostura. Inquietava-a o que trazia consigo, disfarçado no regaço da abaya. O marido interrogou-a, procurando desmascará-la: «Que carregas contigo, mulher?». Lamya, a de negros lábios (esse era o seu nome), hesitou a respiração. Procurou arguir: «Senhor, acaso censurais o sadaqah, a caridade? Ouvi dizer que não aprovais as minhas práticas. Peço desculpa se vos ofendo com elas». «Para com os inimigos da fé o Profeta não prescreveu a compaixão» (o sultão perguntou-se aqui se não deveria citar nietzsche sobre a piedade como último pecado, mas, visto que o alemão ainda não tinha sido inventado, optou por ficar calado). Insistiu: «Mulher, amas demais: estes homens não merecem os teus sentimentos». «Senhor, não digais que amo demais: todo o amor é sempre por defeito», sorriu ela. «Mulher, não quero mais que alimentes estes miseráveis. Incorrerás na minha ira se ousares desobedecer-me». Lamya mordeu humilde os lábios negros e engoliu o veredicto amargo: «Assim farei, senhor». Considerando acabada a conversa, recomeçou a andar em direcção à prisão. O sultão, porém, indignado de ela continuar o seu caminho indiferente, seguindo com a carga proibida junto ao ventre oculto, exclamou, irado: «Desobedeces-me?». Agarrou-lhe o pulso puxando o braço. De imediato, o arranjo do regaço se desmanchou (a outra mão incapaz de sozinha o manter colada ao corpo), expondo o segredo - e dezenas de jasmins correram sobre o chão. «Vede: são jasmins, meu senhor», pronunciou ela com calma, enquanto, já libertada pelo espanto que acometeu o sultão e lhe desprendeu a mão, recolhia as flores. O homem deixou o corredor, apavorado. Isabel foi nesse dia à prisão, mas não regressou mais lá. Incapaz de dizer adeus, não o disse: e corrigiu o seu erro com uma noite de lágrimas. Isso apaziguou o sultão, que entretanto resolvera descartar a notícia do adultério da mulher como um boato. De resto, uma notícia fê-lo esquecer todo o desconforto que a caridade antiga da mulher lhe poderia inspirar: lamya estava de esperanças. Os médicos do sultão confirmaram e acompanharam a gravidez. A criança nasceu, mas defraudou o pai em não sendo um primogénito: era uma rapariga, e a mãe chamou-lhe salomé. O sultão alegrou-se quando, um ano e meio mais tarde, lamya deu à luz o desejado rapaz: e esqueceu, como um abraão, hagar e ismael. No gineceu, as duas educavam-se. Quando a filha completou sete anos, iniciou-se o tempo da sua escola e a mãe tomou em mãos a tarefa de crescer salomé: e a menina crescia em idade, sabedoria e beleza perante os homens e Alá. Numa arte, porém, era unânime, entre todos, o louvor dela: a dança. Ela movia-se com a curvatura das cobras e a flexibilidade das searas sopradas. Quando completou catorze anos, achou o sultão por bem ser tempo de a expor aos homens: e os pretendentes acorreram. Veio o primeiro príncipe, ela dançou para ele. Veio o segundo, ela dançou para ele. Veio o terceiro, e quando o pai lhe pediu que dançasse, ela olhou o pretendente, e sentiu-se incapaz. Fugiu da sala. O sultão reagiu com espanto e desaprovação, mas insistiu com o pretendente para que dormisse aquela noite no palácio: no outro dia, garantiu-lhe, salomé dançaria para ele. A rapariga entrou no seu quarto e verteu-se sobre o leito. Algum tempo depois, a mãe, a quem contaram tudo o que havia sucedido, entrou no quarto, delicadamente. Sentou-se na beira da cama e afagou os pés da filha. Salomé, que nunca ocultara nada da mãe (e por isso ainda era inocente), perguntou-lhe: «Mãe, o que é o amor?». E lamya, sorrindo-lhe, contou-lhe a estória da sua paixão, como a tinha recapitulado mentalmente vezes infinitas na espera do dia em que a poderia partilhar com a filha. Salomé escutou com atenção, como um conto de embalar para sonhar sem adormecer - e no fim, sabia o que era o amor: é o nome que damos ao desejo de sermos felizes. A mãe retirou-se, como irmã mais que como mãe. No seu íntimo, salomé ponderava quanto lamya partilhara com ela e tomou a resolução de descer aos calabouços, porque o amor é uma coisa dupla, e ela só tinha visto um jano. Quando o palácio descansava, ela desceu à prisão. Quando ele a viu, concordou que enlouquecera e que catorze anos o tinham destruído. O sentimento, porém, vinha enlameado de uma felicidade irresistível por a redescobrir, que suplantava quase o delírio (que em tempos foi delícia, na metafísica dos sete irmãos narrada numa estação de neblinas por gaiman). Sussurrou por entre o desespero e a esperança (os opostos atraem-se): «Isabel?». Salomé sorriu, percebendo o engano do velho homem, e no seu coração compadeceu-se: «Não, sou salomé, a filha de isabel». Ele procurou testar a verdade das palavras, e, satisfeito, aceitou-as, não sem espanto. «Por momentos, pensei rever a tua mãe: tens os traços e os modos dela. Mas, porque tive esperança? A tua mãe abandonou-me há muito». E enquanto murmurava estas palavras, salomé apercebeu-se de que ele acariciava um jasmim, podre, velho e feio: e reconheceu-o. Um ímpeto de desenganar o prisioneiro acometeu-a, mas uma pergunta muralhou as revelações: «E tu? Ama-la ainda, depois do seu grande silêncio?». Ele olhou-a: «O meu amor por ela fugiu tanto de mim quanto eu fugi desta cela». Ela sentou-se junto dele e falou-lhe a verdade, então, lavando-lhe as dúvidas como manchas. No dia em que lamya transportara as flores, nesse dia ela sabia ser o último tempo de um passado. O corpo confirmara-lhe dias antes as esperanças. Muito em breve, descer as longas escadas ia converter-se num exercício de resistência, e não tardaria mesmo a que os médicos recomendassem o descanso. Sabia: era o tempo de partir. Mandou no mercado comprarem uma flor por cada prisioneiro: peter pan, de resto, dera um beijo ainda mais improvável, com um dedal. Ordenou que tudo fosse feito secretamente, porquanto não desejava que o marido soubesse, temendo uma má reacção da parte dele. A flor seria uma perífrase do adeus que ela não seria capaz de pronunciar. Imaginava como os prisioneiros estranhariam, na semana seguinte, a sua não-visita, e na semana a seguir, e na semana depois: até eventualmente ela se relegada para o plano mitológico de uma criatura doce que em tempos todos imaginaram conjuntamente (que é o único meio de o sonho se ter real, segundo a parábola dos mil gatos de sandman). Naquele dia, como de hábito, visitara-o por último. Jogaram mais uma vez o seu jogo de passearem pela cidade, mas ela pediu-lhe que o fizessem de olhos fechados. Conduziu-o até ao mercado e deu-lhe a cheirar uma flor branca, e quando eles acordaram, ele tinha um jasmim aos pés dele, como um novalis e uma flor azul. Tomou-a nas mãos e admirou-a: quando regressou o olhar para isabel, ela já se tinha ido. Quando por fim salomé nasceu, isabel ponderou regressar aos hábitos velhos e rever o amante, mas sentiu que isso levantaria as suspeitas do sultão, que se tinha alegrado com o fim da sua caridade. Sentou-se ao sol, abdicou, mas não foi rainha de si, porque o seu rei esperava-a sob os seus pés. Ele lamentou-se dos seus pensamentos errados ao ouvir o mito, e contristeceu-se da sua fraqueza em crer em penélopes. A rapariga levantou-lhe o queixo e enxaguou-lhe as lágrimas. Ele pediu-lhe um beijo na testa e ela, acedendo, tocou-lhe a fronte, redimindo-o dos seus pecados. Ia amanhecer e ela viu que era a hora de voltar: despediu-se e subiu em lances de duas as escadas. Pousou-se na cama, fechou os olhos e descansou. A mãe veio acordá-la algumas horas depois. Quando por fim se achou completa, apresentou-se no salão, onde se sabia esperada. O pai dirigiu-lhe umas breves palavras, mas ríspidas: o coração dela estava já sereno e elas não a perturbaram. O sultão mandou então entrar o convidado. Veio o príncipe, e quando o pai lhe pediu que dançasse, ela olhou o pretendente, e inventou o flamenco.

Quando ela fechou o corpo, o príncipe ergueu-se do seu assento, percorreu lentamente, mas seguro, os azulejos do chão até ela, e, prostrando-se a seus pés, pediu, humilde: «Casa comigo, mulher». «Chama-me esposa», respondeu ela. O sultão abençoou logo ali o par (não fora sem expectativas que convidara o jovem a ficar alojado no seu palácio: logo no primeiro dia tinha percebido que ele era um excelente partido, e que havia que mobilizar todos os esforços para o cativar). Marcou-se o casamento e salomé foi apresentada aos pais dos seu noivo. O sultão acrescentou à filha como dote uma razoável quantia de ouro, largos hectares de terra e os seus prisioneiros, que oferecia como escravos. Ao casamento, depois da cerimónia, sucedeu um opulento banquete, organizado no palácio do pai do noivo. As servas e os servos, hebes e ganimedes, corriam agitados pelas mesas, distribuindo a bebida, o alimento e o fausto. A meio da refeição, mandou-se entrar uma bailarina, para ir distraindo os convivas. Vendo isso, o noivo falou a seu pai: «Pai, porque mandas uma mulher destas ao nosso jantar quando a tua nora se senta à mesma mesa? Dispensa esta bailarina e pede a salomé que dance para ti». O sultão reflectiu naquelas palavras e num gesto ordenou à dançarina que abandonasse o recinto. Ergueu-se então e batendo palmas lentas captou a atenção de todos: «Salomé, sabemos-te dançarina: dança para nós, por favor». A rapariga levantou-se, corada interiormente. Contornou a mesa e os homens, e foi para o centro da sala, onde parou. Inspirou e permaneceu. Quando o sultão ponderava já, delicadamente, incitá-la à dança, ela começou e moveu-se como as folhas a quem o vento dá remoinho e levanta do chão: aérea, ela parecia caminhar sobre pontes de luz. Tendo dançado, a filha de Lamya agradou ao sultão e aos convidados. Então o rei disse à jovem: «A tua fama é humilde para com a tua arte. Pede-me o que quiseres e eu to darei». E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino». Ela recolheu a vista para o chão e ponderou. Pedindo licença para se retirar, dirigiu-se à outra mesa, onde estava a mãe e perguntou-lhe: «Mãe, que hei-de pedir?». A mulher reflectiu: andava inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só era necessária. Num murmúrio, interrogou a filha: «Salomé, tu amas-me?». «Senhora, tu sabes tudo: tu bem sabes que eu te amo!». «Então, salva da escravatura aquele que eu amei: porque ele é, em verdade, teu pai». A rapariga desprendeu um grito brevíssimo, que intrigou os presentes, aguçando-lhes a curiosidade. A filha observou os olhos da mãe: e soube que ela não mentia: suplicava. Recompôs-se e dirigiu-se ao sultão: o noivo, orgulhoso, pensava no que ela tomaria. «Senhor, entre os escravos que meu pai, como dote, vos ofereceu, há um, chamado sebastião. Não tenteis compreender os meus motivos: seria como procurar as regras de uma dança. Mas, se quereis ser fiel, como certamente sereis, à vossa palavra, soltai esse homem e deixai-o partir». E assim sebastião, rei de portugal, ganhou a sua liberdade. Apenas salomé, das duas mulheres, o conseguiu ver ainda antes de partir. Pediram-lhe que identificasse o escravo para o libertarem. Quando o viu, mandou dispersar os guardas. Estavam a sós. Ele olhava-a, incompreendendo a sua liberdade. Ela contemplava-o, num esforço insano de registar os traços daquele corpo e rosto. Sorriu ao ver-lhe as mãos, e perceber donde as tinha herdado. Levantou a cara e observou-o de frente. Com a mão esquerda, subtilmente, afastou os cabelos, compridos e desgrenhados, para lhe ver melhor a testa e as têmporas. Sussurrou, quase inaudível, «Pai», e beijou-o violentamente, engasgando os seus lábios nos dele, como querendo compensar naquele êxtase catorze anos perdidos. Largou as suas duas mãos do rosto dele, agarrou-o pelos pulsos, disse adeus - e desapareceu. Sebastião não as tornou a ver jamais. No porto, contou-me, encontrou uma embarcação para portugal. Durante o mediterrâneo, escreveu versos como espantalho da tristeza: "A vida a bordo é uma coisa triste,/Embora a gente se divirta às vezes./Falo com alemães, suecos e ingleses/E a minha mágoa de viver persiste" (sebastião veio mais tarde a emprestar esta estrofe a pessoa. este, querendo-a usar mas sentindo-se incapaz de assinar algo que não era seu, criou para o efeito um heterónimo. o texto teve um sucesso franco, e o sá-carneiro, a quem ele tinha dedicado o poema, acabou por o incentivar a escrever mais assim. a modos que contra vontade, viu-se portanto forçado a continuar o personagem. a verdade, porém, era que não gostava daquele estilo, que criara apenas para não destoar muito do fragmento sebástico. depois de algumas tentativas falhadas, acabou por declarar que o opiário era poema único de uma primeira fase de álvaro e, anunciada assim a solução de continuidade, avançou com o engenheiro para o futurismo, corrente que sempre lhe era mais cara). Passeava pelo convés ausente, e foi lembrando-o que um passageiro escreveu séculos mais tarde num livro sobre uma baleia branca: "Resguardem-se de alistar nas vossas pescarias atentas qualquer rapaz de rosto magro e olhar profundo, propenso a meditações inoportunas e que se oferece levando na cabeça o Fédon em vez de Bowditch. [...] Estas advertências são também necessárias porque hoje em dia a caça à baleia constitui um asilo para muitos jovens românticos, melancólicos e ausentes, desgostosos com os penosos problemas do mundo..." (35). A sua alma ocupava a sua mente que paralisava o seu corpo com recordações da filha e mãe. O barco acabou, como estava previsto, por desembarcar em lisboa. Ao sair, ensopado de memórias, um homem agarrou-o violentamente pelo braço. Com a outra mão segurou-lhe o queixo, observando-lhe a fuça dos vários lados. Remexeu-lhe os cabelos e declarou triunfante: «É dom sebastião!». Pela primeira vez desde há vinte e um anos, sebastião recordou o seu estatuto real. Tinha-se esquecido de que o país onde desembarcara era, em última análise, seu reino: pouco ou nenhum era contudo o seu desejo imediato de o governar. O silêncio de sebastião à exclamação do homem começava a fazer este último duvidar. O velho do restelo abanou por fim a cabeça, reprovando, e comentou: «Oh, esqueça... não é manhã nem está nevoeiro», e com isto abandonou-o. Deambulando, meditando no estranho episódio, sebastião chegou a uma taberna. Sentou-se sem pedir nada. Reflectiu. Parte de si duvidava que o aceitassem como rei depois de alcácer-quibir. Havia, de resto, que ser reconhecido e fora o velho homem (sebastião não sabia que era camões) ninguém o parecia identificar. Não sabia também como seria recebido: regressar ulisses vinte anos depois a um país era achá-lo diferente. No seu lugar, congeminava como é que, sem atena, se iria transformar num mendigo para descobrir os leais do seu reino. Ocupou-se de escutar as conversas humanas. Dois homens, mesmo ao lado dele, discutiam com ardor o que parecia ser uma novidade. Pelas linhas iniciais do diálogo entendeu, facto espantoso!, que portugal estava dominado pelos filipes. A ideia incutiu-lhe uma certa esperança: se se confirmasse essa situação, o seu regresso seria, queria-se convencer disso, bem aceite, garante da restauração da nação (sebastião não sabia que bandarra já tinha profetizado que isso sucederia pela mão de um joão). Continuou a escutar. Pelo que conseguia compreender, certo manuel de sousa, recusando-se a abrigar sobre a sua casa espanhóis, tinha-lhe pegado pelo seu punho fogo. Alguém identificou essa casa como sendo a de dom joão de portugal. O nome despertou memórias a sebastião: lembrava-se bem desse nobre, e trocara amenas palavras com ele. Era um homem valente e sábio: alas, a lança moura ferira-lhe o lado e matara-lhe o todo. Madalena de vilhena (recordava lentamente a genealogia do amigo), diziam os dois lisboetas, era a mulher desse tal manuel: a viúva tinha, portanto, voltado a casar. Lentamente, no seu espírito foi-se delineando um plano. Introduzir-se-ia na família apresentando-se como o defunto joão de portugal. Não planeava demorar muito o seu teatro (garrett ainda não tinha nascido), mas mantê-lo-ia umas aristotélicas vinte e quatro horas que, estava convencido disso, seriam suficientes para ter uma imagem suficientemente razoável de como seria recebido em portugal se se apresentasse amanhã perante as cortes reclamando o trono. Apurou de novo o ouvido, procurando saber a casa para a qual o casal se modera na sequência do incêndio. Decifrando a morada, pôs-se a caminho. Ao chegar à porta, parou: era necessário inventar um passado para os vinte e um anos de ausência de dom joão. Olhou em volta e rapidamente concebeu uma ficção de pergrino (não era também importante detalhar muito a coisa, pois não teria de suportar o disfarce mais que um dia). Pediu então para ser recebido pela senhora e madalena deixou-o entrar. A conversa, como é do conhecimento geral, correu francamente mal. Sebastião não sabia que o casamento já tinha dado frutos e a existência de uma rapariga com pouco menos da idade de salomé perturbou-o profundamente. Já com madalena fora, jorge perguntou-lhe: «Romeiro, romeiro! Quem és tu?». Percebendo que não o reconheciam, sebastião triste murmurou como um ulisses descontextualizado: «Ninguém». Para ser coerente, ainda foi cumprimentar telmo e tentar urdir com ele uma solução para a mentira, mas alea iacta est e a miúda morreu de vergonha. Abandonou a casa e os mortos, e foi desiludido para os portos de círdan onde embarcou. Em avalon achou paz e conversa, entre os outros reis que as nações esperam (notei que sebastião desenvolvera uma amizade especial por mahdi, possivelmente por lhe lembrar alcácer e as duas mulheres). Aborrecido da entrevista, perguntou-me se tinha mais perguntas: desabituara-se ao trato com os mortais. Não o censuro: desde pessoa que não falava com nenhum. Tom hagen, disse-lhe que não havia mais ninguém para o ver, e ele, padrinho, sentiu-se feliz por poder ir enfim ao casamento da filha. Levantou-se do banco de jardim e apoiado na bengala foi-se sentar na mesa debaixo da macieira onde frederico o primeiro o esperava com um xadrez. Ao lado deles, artur praticava whist com ogier, matjaž e wenceslaus 1. Deixei os imortais em eressëa (a que outros chamaram elísio) e regressei pelo caminho que são brandão (o falso, que o verdadeiro ficou em mú, onde corto maltese o encontrou) tomou quando voltou de mag mell. Hoje, mesmo que me pedissem que reescrevesse a rota, desconheço-a e ainda que recordasse, desde bilbo bagins que não partem mais barcos para aman.


*
Regresso IV: Nietzsche

"E neste sentido, declaro que o mundo existiu antes da Criação, e estava no seu fim antes de ter um princípio; deste modo, eu estive morto antes de estar vivo..."
Religio Medici, I, 59, Thomas Browne

Therese conduziu-me a uma pequena sala, onde guardava o irmão. «Ele está já mesmo muito afectado, há dias em que não diz uma única palavra. Ainda anteontem, aliás, veio cá herr steiner e ele nem notou a sua presença, para tristeza de rudolf». Quando entrámos no quarto, nietzsche estava a ver kubrick, 2001: odisseia no espaço. A irmã disse-me para me sentar numa cadeira na varanda e foi-lhe desligar a televisão. Trazido por therese, nietzsche aproximou-se na sua cadeira de rodas. «Friedrich, este herr veio de muito longe (se tempo e espaço são a mesma coisa, como ensina einstein) para falar contigo. Tem isso em consideração e conversa com ele». O filósofo permaneceu calado. A irmã começou a desdobrar-se em desculpas, mas eu disse-lhe que não se preocupasse e que me deixasse a só com o irmão. Ela retirou-se e então nietzsche expirou um guten tag. «Não sei qual o sentido de termos uma conversa que já tivemos», acrescentou. «Se não a tivermos agora, porém, significa que nunca a tivemos», repliquei. Nietzsche sorriu: «Bem observado. Não deixaria contudo de ser interessante não termos uma conversa com a justificação de a termos tido - e ela nunca ter porém acontecido». «Vistas as coisas, só aconteceu outrora aquilo que nós fazemos acontecer agora. O passado é então um produto do presente, e as nossas decisões não actuam sobre o que há-de vir, mas sobre o que já foi», comentei, amando o paradoxo. «Isso faz quase parecer a tese do eterno retorno uma prova do livre arbítrio», riu-se o alemão, respondendo com outro oxímoro. «Alguma vez, porém, as coisas tiveram todas de acontecer um primeiro tempo e nesse primeiro mundo fomos livres: e eu escolhi falar contigo», procurei defender-me. Ele retorquiu: «Se não nos lembramos desse começo, não é porque a idade nos contaminou a capacidade da lembrança, mas porque ele nunca existiu». «Mas se tudo é um eterno retorno, então o tempo é circular: e todas as circunferências têm necessariamente um começo para o compasso. Para que o tempo não tivesse começo, tinha de ser uma recta.», insisti. «E é: o arco da circunferência do círculo máximo é uma linha direita». A sua observação desconcertou-me: a conversa, aparentemente racional, que tínhamos mantido até ali fizera-me esquecer os comentários que circulavam sobre a saúde mental do filósofo. Mas aquela observação nova, digna de um aforismo de heraclito (e quanto não o amava frederico!), superava não os limites do bem e do mal, mas da razão. «Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, 13. Podes confirmar». Permaneci calado, tentando balançar as coisas. «O tempo é um círculo disfarçado de recta, e por isso temos esta falsa impressão de linearidade». Senti que o segundo wittgenstein poderia ter denunciado aqueles jogos de palavras, mas eu não fui capaz de o fazer (talvez por isso não fui nunca wittgenstein). Nietzsche olhou para a paisagem, calmo, mas desiludido. «Julguei-te, erro meu!, diferente: pensei que compreendias. Afinal, não passas da minha irmã. Ainda me lembro do primeiro dia em que lhe anunciei o sonho do eterno retorno. Era setembro (o ano era 1881), tinha passado o verão em sils-maria, onde como um siddharta me atingiu a revelação da roda do tempo. De alguma forma, temia a reacção que a minha irmã pudesse ter à ideia, mas consolou-me a certeza de que eu já lhe tinha anunciado a notícia cem vezes antes e isso não travara o curso do mundo. Resolvi regressar à alemanha sem aviso, para ser ainda maior a surpresa. No dia de partir, escolhi bem a roupa (eu que, doutro modo, pouco cuidava da aparência). Quando já estava perto de casa, pude compreender a minha irmã, na cozinha, a preparar o jantar. Pé ante pé, fui-me aproximando da entrada. Bati à porta. Therese fui à janela da cozinha, para ver quem era, e quando me percebeu a identidade rejubilou. Correu para o hall (tirou o avental no caminho) e escancarou a porta, abraçando-me num ímpeto. Conversámos amenamente, até ser hora de jantar. Na refeição, por fim, achei ser o tempo conveniente de revelar a verdade. Levantei-me e expliquei que tinha algo a anunciar. Minha mãe e minha irmã, atentas, calaram-se. Foi então que eu declarei, solenemente, como um édito, a circularidade das coisas. De alguma forma, as duas mulheres pareceram desiludidas. A minha mãe confessou-me que esperava que eu fosse anunciar o meu casamento (como, se eu apenas conheceria lou salomé no verão do ano seguinte?) e a minha irmã que eu lhes fosse dar algumas prendas da suíça. Acabei eu mesmo por me sentir desiludido: foi então que deixei crescer o bigode». Aqui, o filólogo fez uma pausa.

«Os meus amigos também reagiram mal à ideia, achando-a desconfortável. Eu bem que procurava fundamentar a minha tese para esses espíritos cépticos com argumentos científicos: falei-lhes de poincaré e da simetria-t, mas pareciam indiferentes a essas coisas enquanto discutiam a nova medida de bismark. Senti-me um platão a quem na caverna desprezaram. Mesmo wagner abandonou-me. Resolvi escrever um livro: primeiro, a ingratidão dos meus amigos não devia fazer-me esquecer que esta novidade tinha que ser proclamada ao mundo (por isso dediquei o livro a todos e a ninguém); segundo, entre alguns leitores poderia achar compreensão. Para tornar o livro mais interessante, fabriquei-o como poesia e criei um heterónimo a que chamei zaratustra. Cedo, porém, me apercebi do erro da minha esperança, e quando cheguei à quarta parte de also sprach, não fizeram mais que quarenta cópias dela. Uma súbita dor acometeu-me: eu não tinha falhado na minha missão apenas daquela vez - eu tinha falhado setenta vezes sete e falharia ainda igual número no futuro. Uma terrível angústia da dimensão da minha derrota ocupou-me a alma, e foi por essa altura que alguns me começaram a achar louco. Comecei a escrever muito (na ausência de pessoas com quem falar): não recebia mais que o desprezo dos homens, e mesmo a minha irmã (a quem eu queria tanto bem!) arranjou marido e fugiu de mim para o paraguai, no outro canto do mundo. Desesperado, apontando para mim, gritei por fim do meu refúgio eis o homem, em latim, para que universalmente pudesse ser entendido: mas continuava a ser feito de celofane. Dizem que eu sofri então um colapso, e que a partir daí começou a minha loucura de facto. Mas isso é o mesmo que dizerem que o tolstoi estava louco quando embarcou para astapovo só para não terem de suportar a verdade do que ele escreveu nos seus últimos dias. Talvez seja melhor assim, estar mascarado de louco (eu sempre gostei do teatro e de diónisos). Os homens já se resignaram a não aceitarem a verdade. Até um certo ponto, não os censuro: sonho às vezes mesmo que seria bom ignorar, ser, olhe, como a minha irmã, e talvez sobre essa base fabricar a minha felicidade. Mas cheguei à conclusão de que ser ignorante só é feliz para os sábios: o ignorante jamais se apercebe desse prazer de desconhecer. Aceitei ser o atlas que no mundo suporta a verdade do eterno retorno: a decisão fez-me corcunda. Este peso, das schwerste Gewicht...», deixou-se suspirar. Olhei para nietzsche: não era, de facto, feliz, e parecia nunca ter recuperado do parto da verdade. Estava abatido, melancólico e, julgo, se eu não estivera presente, teria chorado. Creio que quando rafael pintou heraclito estava a pensar em nietzsche e na sua profunda tristeza, mas só munch (que pintou nietzsche) percebeu esse aparte do pintor italiano. Regressar não era nunca fácil: e para ele todo o instante era um regresso a um passado que, porque não acreditava em platão, não conseguia desenterrar pelo exercício da reminiscência. Estranhei no entanto aquele seu desânimo e interroguei-o: «Mas não disse, num cântico de alegria, zaratustra: "Era então isto a vida? Então vamos recomeçar!"?». «Sim. E logo por baixo acrescentou: "Mas semelhante máxima é uma fanfarra"», e quedou-se. Resolvi não insistir mais no assunto: ficámos calados algum tempo. De repente, ele levantou-se e, andando de costas como os caranguejos (era a aplicação em tudo do sonho do eterno retorno), recolheu na sua secretária um caderno, que me passou para as mãos: «Algumas traduções de heraclito que tenho feito», apresentou. Por um momento, reflecti na diferença daqueles dois espíritos e percebi que, de alguma forma, naqueles exercícios de versão, nietzsche devia procurar consolo, como pessoa em caeiro. Para heraclito, o rio nunca era o mesmo: para nietzsche, a tragédia era o rio e todas as coisas serem sempre o mesmo e repetirem-se sem originalidade. Ele concebera o mais fantástico dos regressos: mais que o regresso no tempo, o regresso do tempo. Outros tinha percorrido grandes distâncias para poderem regressar: ele podia estar numa cadeira de rodas e ter um sentimento de regresso muito maior do que o desses aventureiros, porquanto regressava ali a vez mil. Nietzsche aligeirou a conversa: «Quais são os seus interesses?». Respondi-lhe que gostava muito da literatura e do cinema. «Cinema.», exclamou (mau grado o ponto final). Contou-me que o seu filme favorito era o dia da marmota com o bill murray e calou-se outra vez. Foi de cadeira de rodas até ao televisor e retomou o visionamento do filme (tendo sabido que eu gostava de cinema, calculo que deva ter considerado que não me ofenderia por cortar a conversa para ver kubrick: de facto, não me ofendeu).

Era já a sequência final: deixei-me ficar. Naquele dia, porém, a cena revestiu-se de um novo significado e como que julguei nela decifrar uma alegoria: de alguma forma pareceu-me que nietzsche, na sua cadeira de rodas, não era mais do que david, estendido no seu leito, estendendo a sua mão, cansado dos anos e sozinho, para o monólito negro, com a diferença subtil que nietzsche sabia que tocar o ia, enfim, moldar de novo em embrião. Anos depois, revendo estes acontecimentos, considerei que, de facto, devia ser isso que nietzsche me devia estar a tentar comunicar e que ele voluntariamente e propositadamente interrompeu a nossa conversa, só para a continuar na linguagem dos filmes. Pareceu-me incorrecto dizer mais algo (mesmo uma despedida) depois daquela nossa comunicação secreta. Saí do quarto e agradeci a elisabeth a oportunidade. Nietzsche viria a morrer um ano depois, em 1900.


*
Regresso V

"E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' E, levantando-se, foi ter com o pai."
Lc 15, 17-20

Em tempos, eu despedi-me. Escrevi um texto, arrependi-me do texto, apaguei o texto, alguém leu o texto. Não sei se tive saudades, mas hoje tenho coragem. Vagamente apenas me lembro do que me levou a fugir de casa. Havia um profundo sentimento de erro nas coisas. "You're here because you know something. What you know, you can't explain. But you've felt it your entire life. That there's something wrong with the world. You don't know what it is, but it's there... like a splinter in your mind, driving you mad.": não foi sem causa que me chamaram morfeu uma noite, que em inglês se diz morpheus. Retirei-me, portanto, e poucos sentiram a minha falta e nenhum mais do que eu a ausência de alguém em mim. O curso, todo o dia mais nédio, espojava-se pelo meu tempo e rebolava-o da sua lama. Alas!, a minha escrita é claustrofóbica e quando se viu no mesmo elevador com a universidade saiu logo no andar a seguir sem escadas. O verão, de alguma forma, arrefeceu o ressentimento. Ousei regressar. Antes de transpor a soleira, sentei-me nela. Pareceu-me necessário engendrar um pedido de desculpas. Não procurei causas (aitiai) mas exemplos (archai) para a minha atitude. Deixaram-me entrar. Não garanti a ninguém ficar, com medo do futuro, mas prometi ajudar enquanto permanecesse ali, como forma de pagamento. Não sei o que nostradamus me tem a dizer: sei que por ora este é o meu lugar.
26-28.08.2007

terça-feira, agosto 14, 2007

Primeira Curtada §4: Adenda Auto-Crítica de Uma Vida

O LABIRINTO

A cidade investiu tudo na contrução de uma imponente catedral. Ouro, pedras trabalhadas, tectos pintados pelos grandes pintores do século.
Para a valorizar ainda mais decidiu-se dificultar o acesso. O que se atinge com facilidade deixa de ter valor, filosofava com esforço um determinado político.
Construiu-se então um labirinto que era o único meio de chegar à catedral. O labirinto foi tão bem feito que nunca ninguém conseguiu encontrar a passagem para a catedral.
O labirinto transformou-se na grande atracção da cidade.

In: O Senhor Brecht, de Gonçalo M. Tavares

Quem souber ler símbolos, leia-os.

quarta-feira, julho 18, 2007

Em Busca da Beleza Perdida §3: Primeiro ou Beowulf: Pontos

A primeira vez que me apresentaram a Beowulf foi numa convenção de heróis. Calhou estarmos alojados no mesmo hotel e um dia encontrei-o no lobby, lendo o New Yorker. Perguntei ao rapaz da recepção, empregado de verão para ganhar algum dinheiro fácil, quem era o indivíduo e ele, verificando a identidade no livro de registos, confirmou-me o suspeito. Aproximei-me e, como quem teme interromper (mesmo que saiba - e especialmente se sabe - que está no processo disso), perguntei, apenas pela delicadeza retórica de uma question tag: «Beowulf?». O herói poisou a revista e levantou-se entre um oh de espanto que disfarçava o desconhecimento de mim com a interjeição de um assomo de lembrança. Era um sujeito substancialmente alto, mergulhado num fato polido de ocasião (camisa branca nas consequentes molduras pretas das calças e do casaco), mascarado de concodar com a art nouveau d'ouro e vermelha do hotel. No rosto tinha a cara de quem leva o destino às cavalitas. Magro, tudo nele era longo e estreito: olhos, lábios, nariz, dedos; parecia uma grande cana atlética. Os cabelos tinha-os puxados para trás com ímpeto e gel, castanhos pela altura dos ombros. Sorriu-me ao estender-me a mão, procurando balbuciar fingidamente uma palavra na expectativa de que eu o interrompesse na revelação do meu nome. Assumi a minha identidade e ele convidou-me a sentar no canapé ao lado dele. Ofereceu-me um cigarro que eu rejeitei e acendeu o seu. Quis saber coisas sobre mim, numa simpatia sincera. Perguntei-lhe em que se tinha reformado, e ele respondeu-me que trabalhava agora como ourives (rimo-nos ambos da pun): "From ring-giver to ring-maker and i'm not yet a sauron!". A deixa foi o bastante para dali inquirir o passado dele. Contou-me a vitória sobre Grendel e a mãe, mas omitiu a luta final com o dragão: compreendi que não quisesse falar das sua morte e respeitei-o. Ariadne apareceu então por detrás, inclinando-se sobre a cadeira e sussurando-me ao ouvido a ordem de ir: os trabalhos da manhã iam começar. Uma trança encaracolada dela caiu-me a fazer cócegas no pescoço e eu concordei contudo o que ela dizia só por causa disso. Levantei-me, despedi-me de Beowulf e prometemos rever-nos. Ariadne tinha apanhado o cabelo em forma de flor aberta no topo da cabeça, com algumas madeixas a escorrerem até baixo. Cobrira os olhos de sombra preta egípcia e vinha vestida com uma camisola de lã de cores hippies e uma saia de linho violeta a encaixar numas sandálias. Deu-me um fio para me orientar até à sala e um beijo para me desorientar a alma. Ainda hoje, quando vou a Creta, mesmo se nunca lá fui, durmo no palácio dela. (observação: o congresso de heróis chamava-se Livro Ilustrado de Mitos, organizado por Neil Philip).

Não tive mais notícias de Beowulf até há coisa da páscoa passada ter tropeçado, em plena descoberta de Borges, no ensaio As Kenningar. Foi o mote para eu ir aprenler Beowulf. Arranjei o livro no instituto inglês, na premiada tradução de Seamus Heaney, numa edição da Norton Critical. Aos meus amigos, quando inquiriam o que estava a ler, respondia-lhes que era a Ilíada dos ingleses. Beowulf trata-se de um longo poema heróico-elegíaco, com data algures entre o século VIII e o X e 3183 versos, escrito em inglês arcaico, também chamado de anglo-saxão. Ao contrário do português arcaico, que é razoavelmente compreensível para o falante moderno (é possível estudá-lo no início do secundário), o inglês arcaico é ininteligível para a rainha de inglaterra. Por isso mesmo os ingleses são obrigados a ler o seu épico nacional em traduções, o que porém não nos deve espantar num país em que se conduz pela esquerda.

Lembro-me da minha surpresa quando abri a Odisseia e não rimava - e senti-me defraudado por um homero que tinha concebido à imagem de camões. Nessa altura, as canções de embalar ainda tinham de rimar para eu adormecer. Beowulf, como parece ser teimosia dos grandes épicos (Milton dizia mesmo, no prefácio do seu, que a rima era uma "invention of a barbarous age, to set off wretched matter and lame meeter"), também não faz estrofes (como Borges bem identifica no seu referido ensaio, a estrofe é uma criação que resulta directamente da rima), mas, em contrapartida, alitera. O verso é composto por duas partes, chamadas hemistíquios: cada uma destas pode, por sua vez, ser dividida em outras duas. Ficamos assim com quatro unidades métricas, em que a primeira obrigatoriamente alitera com a terceira, podendo a segunda juntar-se à dança. Foi assim que eu aprendi a adormecer, onde antes tinha cantigas, ao som de trava-línguas. Traduzir mantendo este padrão é, como facilmente se entende, uma tarefa titânica, mas Heaney carrega atlas sobre si um prémio nobel da literatura. Nem sempre conseguindo necessariamente manter a rígida regra, o poeta, na sua tradução, garante que pelo menos duas palavras aliteram, contudo. O seguinte verso obedece à ordem básica da lírica germânica: "[1] by his powerful [2] thanes. [3] A party [4] remained" (v. 400). Por meio dos números procurámos indicar as já referidas quatro partes em que se decompõe todo o verso anglo-saxão. A negrito mostramos o fonema que alitera: /p/. Esta era a "rima" básica (entre o [1] e o [3]) que se exigia ao bardo inglês, chamado de scop. Adicionalmente, como dissémos, o [2] podia juntar-se ao obrigatório namoro do [1] e do [3]. Este ménage à trois desbrochava em versos como: "[1]So every [2] elder and [3] experienced [4] councilman" (v. 415). Heaney, porém, na sua tradução, chega a conseguir orquestrar as quatro partes da empresa em coros como: "[1]but shields must [2] stay here and [3] spears be [4] stacked" (v. 397). Nesta exótica substituição nórdica do artifício da rima há algo de infantilmente cativante para quem brincou sempre no pátio defronte da casa greco-romana. E para o poeta dessa educação, esta é a revolta querida e necessária, o exercício dos caminhos obscuros, o desafio insano: virá talvez o dia em que escrevamos todos como se profetizássemos lengalengas.

Os poetas anglo-saxões, longe de Homero, compuseram-se a si mesmos e inventaram os recursos que o papá grego que não conheciam não lhes pode por isso ensinar. E entre eles desenvolveram uma linguagem secreta e onde homero escrevia epítetos eles musicaram kenningar. Um kenning é uma perífrase que é uma metáfora. No precipício do fim de Beowulf, escreve Anónimo: "ban-hus", que Heaney traduz por "bone-house" - com isto querem dizer corpo. Eis, irmãos e irmãs, o kenning. Os kenningar (é o plural) são uma nova linguagem por si próprios, necessária de aprender para restaurar a beleza no mundo. Segundo tem sido sugerido, o próprio nome Beowulf é um destes, sendo um composto de bee-wolf, o lobo das abelhas. Se por lobo entendermos inimigo e nos temperarmos com um pouco de imaginação, percebemos que o inimigo das abelhas é o urso. Não deixa de ser significativo que os dois maiores heróis mitológicos ingleses - Beowulf e Artur - tenham nomes que significam o mesmo animal. Os kenningar são palavras cruzadas da criatividade. Logo no verso décimo do poema, temos "whale-road", o caminho da baleia, para dizer "mar". Beowulf não é, contudo, o mais rico dos poemas em kenningar. Outros épicos nórdicos ultrapassam-no, nesse aspecto. Borges, assaz crítico da técnica (soubesse ele os kenningar de ideias que a sua prosa guarda!), afirma: "Reduzir cada metáfora a uma palavra não é resolver incógnitas: é anular completamente o poema". Contudo, onde o poema nas longas e monótonas descrições das batalhas na Iíada? Veja-se sintomaticamente o seguinte passo do Canto XI: "Oileu saltara do carro para se colocar à sua frente./Mas no momento em que arremetia o rei desferiu-lhe/um golpe na testa com a lança afiada; o elmo pesado de bronze/não reteve a lança, que o atravessou assim como ao osso./Os miolos por dentro ficaram todos borrifados;/e assim subjugou quem contra ele arremetia" (vv. 94-98, tradução de Frederico Lourenço). Confrontados com a mesma necessidade de relatar as gestas bélicas dos seus heróis, os nórdicos, pelo menos, aliviaram ao ouvinte o peso da narração com uma cascata de metáforas em que a lança já não é mais a lança, mas sim um "dragão de cadáveres"; a espada abandona de si o nome espada, e torna-se o "lobo das feridas"; e o guerreiro despossessa-se do nome secular com que o baptizaram e reconverte-se na "árvore da espada". Claro que, como bem aponta Borges, corre-se o sério risco de cair num gongorismo balofo. Não sucede isso em Beowulf, como já afirmámos, onde, pelo contrário, apenas lamentamos não existirem estes em maior número.

Como um neo a tentar bater num morpheus, ainda não o atingimos: é tempo de o fazermos. Despi as roupas de poeta e deixei para trás a filologia do poema, para ficar com o herói e saber-lhe a estória e os feitos. Hrothgar, rei dos Jutos (actual Dinamarca, cuja península é precisamente designada de Jutlândia), ordenou a construção de um palácio "meant to be the wonder of the world forever" (v. 70). De todos os cantos do reino e do mundo vieram trabalhadores e juntos como um memorial do convento ergueram Heorot, "the hall of halls" (v. 78). O rei e as suas tropas vieram habitar aqueles paços e nas primeiras noites a festa foi grande como uma tróia que deixou falsamente de estar sitiada. Os homens, porém, desconheciam. E uma noite, um monstro humanóide, da prole de Caim, Grendel de nome, insuportando as harpas e os cantos e as luzes e as festas, atacou o novo palácio, matando trinta homens: "greedy and grim, he grabbed thirty men" (v. 122). O rei ordenou que se montasse vigia na noite seguinte e os homens bravos aprontavam-se para matar a besta. Grendel regressou e destruiu os guerreiros, pois nenhuma arma conseguia perfurar a sua pele. E assim, Heorot foi abandonado e Hrothgar, bom rei de sábias vitórias, viu o seu reino encharcado de terror. Grendel todas as noites ia até Heorot, matando ocasionalmente pelo caminho: "There was panic after dark, people endured/raids in the night, riven by the terror" (vv. 192-3). Doze anos se lamentou o rei e nesse tempo os poetas e os marinheiros fabricaram estórias da desgraça da Jutlândia até estas, pelo labirinto das bocas e dos ouvidos, terem chegado até Beowulf, vassalo de Hygelac, rei dos Godos. Com os seus homens, rumou à Dinamarca. Apresentou-se a Hrothgar, expondo-lhe o seu propósito. O pobre e ancião rei acolheu de braços abertos o aventureiro, e como fora o pai de um filho pródigo, mandou matar o animal mais gordo, e em Heorot celebraram. As bebidas aquecem os homens e um guerreiro dentre os Jutos, Unferth, provocou-o, desdenhando do seu valor. Um homem a isso responde de dois modos: por baixo, iniciando uma luta, ou por cima, cobrindo a aposta. Beowulf prometeu então matar Grendel sem recorrer a armas. Quando a noite se aproximou, o rei abandonou com a sua companhia o palácio, desejando boa sorte ao guerreiro godo. "Then out of the night/came the shadow-stalker, stealthy and swift" (vv.702-3). Com as mãos nuas e o coração vestido de coragem, Beowulf fez-se à besta e numa dança nupcial triunfou-lhe arrancando-lhe o braço. Um grito reverberou pelas paredes de Heorot, pintadas do sangue do neto de Caim. Grendel arrastou-se até ao seu covil, sangrando abundantemente para morrer em paz como um ivan ilitch. Quando o sol saiu, Hrothgar se dançasse dançaria: Heorot foi reocupada e grande foi o festim que contou com a presença da rainha, Wealhtheow. Beowulf foi agraciado com grandes prémios e por todos era coroado de herói. Descansados, adormeceram: mas um não voltou a acordar. Pela calada da noite, um monstro ainda mais terrível matou Aeschere, o conselheiro mais próximo do rei. Hrothgar enlutou-se pela morte do amigo e lamentou a vingança da mãe de Grendel e a desgraça incessante que escorregava sobre o seu reino. Beowulf pediu ao rei que o levasse ao pântano onde habitava o novo monstro: aí o mataria. Unferth, antes que o godo mergulhasse nas águas sujas onde se escondia a mãe da sua primeira vítima, deu-lhe a sua espada, que nunca o havia defraudado em batalha, como prova de reconhecimento pelo seu valor, pedindo desculpa pelos seus comentários anteriores. Beowulf agradeceu e mergulhou fundo. A mãe de Grendel atacou-o, mordendo-lhe o peito: salvou-o a sua cota de malha, forte e impenetrável, trabalho impecável de metalurgia. A espada de Unferth mostrava-se impotente contra o monstro, mas Beowulf notou, no fundo do lado, uma espada do tempo dos gigantes, e, na sua força, erguendo-a, cortou a cabeça da besta. O sangue afluiu à superfície e o rei e a sua corte - que a tudo assistiam de cima - julgando ser o sangue de Beowulf, abandonaram o local, entoando lamentos pelo herói e pelo destino cruel que impendia sobre a nação dos Jutos. Choro precipitado, tão precipitado como a primeira festa em Heorot! Beowulf reapareceu ante eles, transportando consigo a cabeça da mãe de Grendel. Ah!, o reino estava salvo e todos foram mais uma vez celebrar para o hall de Hrothgar, Heorot. Os bardos entoavam sempre novas melodias e as canecas enchiam-se permanentemente. Hrothgar presenteou Beowulf com tudo o que este quisesses e as dádivas generosas do distribuidor de anéis - assim designavam o rei - foram embarcadas e, com elas, os homens, que partiram para a sua terra. Muitos anos depois, Beowulf, por um conjunto de circunstâncias bélicas, tornou-se rei dos Godos, que viveram prosperamente enquanto foram por ele governados. No fim do seu reinado, porém, um novo desafio, o último desafio, aguardou-o. Um qualquer ladrão de tesouros roubou, no sono do dragão (draco dormiens nunquam titillandus, já se diz em Hogwarts), parte do seu tesouro. O verme acordou na sua fúria e começou a desvastar as terras envolventes e a aterrorizar os camponeses. Beowulf ergueu-se do trono sem bengala, apesar dos cinquenta anos de domínio justo sobre o povo. Levando consigo uma companhia de homens, foi ter com o dragão à sua cova (a ambiguidade é propositada: a cova é o antro, mas a cova é o túmulo também). Aí enfrentou o cuspidor de chamas, mas, ai!, o velho rei era no coração o mesmo jovem que matou Grendel e a mãe, mas não mais no corpo! Grandes eram as dificuldades de Beowulf, mas ninguém da sua companhia correu a protegê-lo, excepto o jovem Wiglaf (que havia de suceder a Beowulf), que com o seu escudo protegeu o rei. Com a ajuda deste, como um iolau que socorre hércules frente à hidra, Beowulf triunfou - para morrer. Grande foi a dor que se abateve sobre os seus súbditos porque haviam perdido um grande rei e, sem ele, se encontravam de novo à mercê dos povos vizinhos, que - sabiam - não tardariam a atacá-los. Com o cadáver de Beowulf foi enterrado o tesouro do dragão, num monte de terra tão alto que os marinheiros o conseguiam ver de longe: tão longe quanto a fama de Beowulf.

Apesar de o primeiro confronto com Grendel e, depois, com a sua mãe serem os mais conhecidos da lenda de Beowulf, creio ser no confronto final que o poeta atinge a perfeição da sua expressão. A sequência da morte de Beowulf e do seu funeral, com que se conclui o épico, é pungentemente bela - uma vez ao longo de todos os versos, senti verdadeiramente os personagens, a enorme sensação de tragédia e destino que preenchem o poema, o sofrimento: e no lugar de heróis, vi homens. Enquanto lia o episódio, revivia a morte de Artur, que sempre me impressionou como uma peça grega: quando era pequeno, chorava muito em lendo essa passagem. A morte de Beowulf, com as suas diferenças, conseguiu de mim a mesma catarse. Transcrever aqui os muitos versos do passo seria agora despropositado, mas será provável que, numa releitura de Beowulf, poste aqui excertos.

De todas as personagens, marcaram-me especialmente Wiglaf e Modthryth. Onde Beowulf age para provar o seu valor, Wiglaf avança para testemunhar a sua lealdade. Ele é o protótipo do jovem guerreiro, inflamado de orgulho pelo seu rei, desejoso de o defender e lutar ao seu lado, sem que, na sua adoração cega da figura-modelo, meça, muitas vezes, os riscos de se aventurar no zelo da sua devoção. É, contudo, precisamente essa imoderação, essa entrega total e não peneirada pelo raciocínio frio, brotada livre da alma, que o torna o símbolo do guerreiro puro, inocente e bravo - o guerreiro que provará o santo grall. É uma imagem a que o romance de cavalaria recorrerá com frequência e que herdámos dessa idade média. Modthryth, essa, é uma personagem absolutamente secundária, apenas referida de passagem, mas que conquistou o meu fascínio. Transcrevo as linhas que a ela se referem: "Great Queen Modthryth/perpetrated terrible wrongs./If any retainer ever made bold/to look her in the face, if an eye not her lord's/stared at her directly during daylight,/the outcome was sealed: he was kept bound,/in hand-tightened shackles, racked, tortured/until doom was pronounced - death by sword,/slash of blade, blood-gush, and death-qualms/in an evil display. Even a queen/outstanding in beauty must not overstep like that" (vv.1931-41). Seguem-se ainda alguns versos, em como se diz como a rainha alterou o seu comportamento, depois de casar. O que, porém, me penetrou a imaginação como um aguilhão afiado foi esta imagem de uma rainha de beleza tal que votava à morte quem a olhasse. Modthryth está talhada para ser um símbolo. Num certo sentido, é como uma eurídice invertida: não é o amante (Orfeu) que a condena à morte em olhando para ela, é sim ela que, olhando-a o amante, o sentencia. Ela é a metáfora mais terrível e vampírica da mulher-demónio, da femme fatale, cuja observação da beleza marca a morte do artista. Há algo de ícaro na atitude de quem a olha: um desperezo salutar pela vida em nome de valores maiores. É como uma sémele que soubesse de antemão que ver o amante zeus era matar-se - e insistisse nisso! Olhar Modthryth é a alegoria de não conhecer fronteiras ou limites, da temeridade de saber: é querer as coisas pelo seu valor intrínseco e não as julgar pelo seu preço. Só quem despreza muito a vida a pode ter ao máximo. Modthryth é o brasão, a tatuagem dessa prole de gente.

Outra das riquezas da obra são as sentenças gnómicas em que abunda. Estas são frases que, nalguns aspectos, podemos comparar aos nossos adágios e provérbios: uma colecção do que os velhos pronunciam antes de morrerem, com a súmula da sua experiência terrena - é essa a fonte dos ditos populares. Não pertencendo Beowulf, de modo nenhum, ao género da literatura sapiencial, como o Trabalhos & Dias, de Hesíodo, o seu autor pintou-o com várias linhas que, na sua incisão lacónica, guardam em si verdades extensas. "Often when one man follows his own will/many are hurt" (v. 3077-8) ou "Behaviour that's admired/is the path to power among people everywhere" (v.24-25) inscrevem-se como mandamentos no coração do homem sábio, que reconhece neles a polidez das coisas certas. Beowulf oferece também uma visão das relações sociais desse tempo de antanho, marcadas por um ciclo de violência ininterrupto. Um homem tem de vingar a morte do seu familiar ou esperar que a família do assassino ofereça ouro para compensar a perda, numa quase antecipação do direito moderno, que prevê precisamente esta figura da indemnização em certos casos de homicídio por negligência. É uma moral guerreira sinceramente estranha ao tempo moderno: as guerras, em Beowulf, são incessantes - os anglo-saxões não deram o passo dos gregos, quando estes saltaram da Ilíada para a Odisseia, do forte Aquiles para o artificioso Ulisses, do vigor do braço para a astúcia da mente.

Durante muito tempo, Beowulf foi analisado precisamente como repositório de dados arqueológicos e históricos apenas. A Tolkien e ao seu seminal ensaio Beowulf: The Monsters and the Critics (1936) se deve a reavaliação de Beowulf como um poema de valor literário intrínseco. O ensaio de Tolkien, que acompanhava a minha edição do épico, é essencial para se entender os méritos de Beowulf. Num estilo claro mas literário, que confirma a genialidade de Tolkien, este argumenta como um cícero apaixonadamente a favor de uma reconsideração literária de Beowulf, delineando as principais linhas de força e centrando a sua análise nos monstros e na sua simbologia enquanto forças do mal absoluto. Não me concentrarei aqui tanto nesta abordagem de Tolkien quanto numa consideração que ele tece no decurso da sua reflexão, que me abriu os olhos até doerem. Tolkien defende que há uma diferença substancial de mundividência entre as mintologias grega e nórdica:

"[...] we may with some truth contrast the 'inhumanness' of the Greek gods, however antropomorphic, with the 'humanness' of the Northern, however titanic. In the southern myths there is also a rumour of wars with giants and great powers not Olympian [...]. But this war is differently conceived. It lies in a chaotic past. The ruling gods are not besieged, not in ever-present peril or under future doom. Their offspring on earth may be heroes or fair women; it may also be the other creatures hostile to men. The gods are not the allies of men in their war against these or other monsters. The interest of the gods is in this or that man as part of their individual schemes, not as part of a great strategy that includes all good men, as the infantry of the battle. In Norse, at any rate, the gods are within Time, doomed with their allies to death. Their battle is with monsters and the outer darkness. They gather heroes for the last defence. [...] When Baldr is slain and goes to Hel he cannot escape thence any more than mortal man. This may make the southern gods more godlike - more lofty, dread, and inscrutable. They are timeless and do not fear death."

Esta passagem é multiplamente virtuosa. Primeiro, no que diz mais respeito a Beowulf, explica a importância dos monstros, que os críticos anteriores sempre haviam desgostado, considerando-os infantis e excessivamente imaginativos, na esperança de encontrarem no Norte as tragédias gregas meramente humanas, despovoadas de fantasia. Os monstros são importantes precisamente porque toda a teologia nórdica assenta na luta contínua contra essas forças do mal, num maniqueísmo talvez simplista, mas verdadeiro para aqueles que nele acreditavam. Os monstros como encarnações do mal que todo o ser humano é forçado a enfrentar na vida ganham ressoância universal. Eles são forças luciferianas: há algo de apocalíptico (o sentido do destino, o cheiro da morte) que reina sobre Beowulf. Segundo, esta observação, profundamente perspicaz, revela uma diferença radical, de consequências que não podemos medir aqui inteiramente, entre duas concepções do mundo. Qual delas a verdadeira desconhecemos. Havemos de retornar a esta oposição identificada por Tolkien, com mais fôlego e mais saber. Por último, isto vem mais uma vez relembrar a importância dos estudos comparados de mitologia e a forma como qualquer especialização, neste campo, é profundamente redutora: não se pode estudar mitologia grega ou nórdica ou japonesa - estuda-se tão somente mitologia, na nudez da expressão (e nem mesmo isso se estuda, ama-se).

Beowulf e Tolkien namoraram algum tempo (antes de ele conhecer Lúthien) e bastardamente descendeu desse amor O Senhor dos Anéis. Estou convencido que o épico anglo-saxão é essencial para a compreensão da génese e de alguns elementos da maior mitologia do século XX, o legendarium tolkeniano, apenas superada na dimensão pela segunda grande mitologia desse século passado: os comics americanos. O próprio nome O Senhor dos Anéis compreende-se melhor tendo Beowulf como fundo. Aí, o rei é designado muitas vezes pelo kenning de ring-giver, que é um epíteto de poder. Entende-se agora a ideia estranha do anel, recuperada desses tempos obscuros de uma inglaterra antiga. Não deixa de ser sintomático que Bilbo, no Hobbit, inicie as suas viagens vencendo um grupo de trolls e as termine derrotando um dragão: também Beowulf triunfa sobre Grendel, que vários estudiosos identificam precisamente como um troll, e mata, no fim da vida, o dragão. Heorot e a corte de Hrothgar recordam de sobremaneira, a meu sentir, Meduseld e Théoden, de Rohan. As canções que Tolkien introduz no meio das celebrações (recordo Bilbo em Rivendell) deixam de aparecer aos olhos do leitor como meras efusões líricas do filólogo do cachimbo e transformam-se em ressonâncias dos jantares de Heorot, permeados de estórias de bardos. Por fim, há todo um tom e tempo, intransponível em palavras, que permite ver duas obras gémeas que nasceram da mesma musa, mas separadas pelos séculos de um parto que, como a alcmena, íris atrasou.

Beowulf, de resto, continua vivo na cultura popular. Em Novembro próximo estreará um filme homónimo, de Robert Zemeckis. Não é este o espaço para explanarmos os nossos receios quanto à técnica escolhida para a película. Consola-nos (muito) que o argumento seja de Roger Avary (co-escritor de Pulp Fiction) e Neil Gaiman (Sandman) - especialmente este último, o grande reinventor pop de mitos, desperta-nos curiosidade e confiança suficientes. Entre os actores, destaque para Anthony Hopkins (Hrothgar), John Malkovitch (Unferth) e Angelina Jolie (a mãe de Grendel). Iremos seguindo aqui o desenvolvimento do projecto. Próxima etapa: trailer.

Ilustrações de Lynd Ward (1939): (1) Beowulf; (2) Geats Sail For Deanmark; (3) Wrestling With Grendel; (4) Beowulf Dives Into The Mere; (5) The Dragon; (6) Death Of Beowulf; (7) Mouring At Beowulf's Bier.

P.S. (póstumo): Há um erro na história que escrevi de Beowulf: ele nunca aparece com a cabeça da mãe de Grendel, mas sim com a do próprio Grendel. Coisa estranha: tão estranha que, no meu cérebro, eu a corrigi. Resolvi não alterar o texto, contudo, e perservar a mentira para o leitor incauto que não leia até ao fim, cansado. É que, no fundo, é fascinante o modo como a nossa mente vê o que quer, escreve o que pensa - não lê o que está.

segunda-feira, julho 16, 2007

Em Busca da Beleza Perdida §2: Conveniente

A ideia de possuir a musa é só parcialmente verdadeira, porquanto, não raro, é a musa que nos possui, numa afirmação de feminismo mitológico. A obra de arte só parcialmente é obra do escritor: é muito mais da arte. A noção do texto como uma entidade autónoma, apenas em parte sob a tutela do autor, é, compreende-se, díficil de aceitar por um mundo que varreu de si a crença no sobrenatural (os velhos deuses não eram mais que manifestações dessa inexplicação das coisas). A arte, portanto, é, em primeira instância, um organismo, no sentido etimológico do termo: um corpo cujas partes "executam os diversos processos necessários à vida" (Houaiss); desenvolve-se per se, sem intervenção externa. O papel do falsamente chamado criador podia ser comparado ao dos pais que, não sendo eles que fazem a criança crescer, asseguram que esta dispõe dos meios (alimentos, saúde) para que o possa fazer nas melhores condições. O artista lúcido não teme expôr esta autonomia da arte: assim, Esher compôs a mão que se pinta a si mesma - é outra a mão que pinta, que não a mão do pintor. O símbolo universal desta verdade, a sua manifestação imaginada máxima, é o Livro do Destino - o livro último, que continuamente se escreve e se corrige a si mesmo. É que nem mesmo os deuses são superiores ao destino, para os julgarmos autores dele. Não raro, é precisamente quando o artista, enquanto sujeito e não mais enquanto veículo, se procura impor que a arte enfraquece e cai de cama.

Ontem ou anteontem (num dia qualquer que não foi hoje, e pouco importa qual seja, pois qual seja será sempre irrecuperável), eu queria ter escrito uma introdução breve e formal com o propósito que preside ao Em Busca da Beleza Perdida. Em vez disso, a circe-arte (porquanto o poder da arte é esse mesmo da metamorfose e daí a metáfora ser a sua expressão mais pura e o símbolo a metáfora maior) transformou cila, que era bela e amada, num monstro de seis cabeças, sem um hércules que a matasse. E por isso eu criei um eurípides para matar ésquilo e se desembaraçar da "sua gordura pomposa". Assim achei por bem escrever, armado de uma gravata e um papillon, uma apresentação conveniente para o projecto, entendível ao mortal (de tanto se habitar entre os deuses no olimpo, o homem que ali subiu como belerofonte esquece-se que é mortal, de viver entre os imortais).:

Tenho no andar de baixo, entre livros de todas as áreas, o primeiro volume, na tradução de Pedro Tamen, de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Nunca li o cujo. O nome, porém, conservei-o na estante da memória como uma enciclopédia muito bonita para as visitas verem. Quando surgiu a ideia de criar este blogue, o nome retiniu nos calabouços das lembranças, batendo com uma pedra nos canos da parede da cela - e então eu libertei-o, porque o via já diferente e recuperado. Há coisas belas no passado. Do passado dizia Cícero: "De resto, que te importa que falem de ti os que nascerem depois, se já não falaram os que nasceram antes? Esses homens não foram menos numerosos, e foram certamente melhores". Quando eu era pequeno, acreditava nos dinossauros porque tinham aparecido na televisão em 93 e queria ser um paleontólogo. Hoje, tornei-me um paleontólogo de deuses e heróis e exercito-me nesse meu emprego no curso de clássicas. Quando era criança, eu lia, para me embalar, dicionários de mitologia e o meu herói era o hércules e a xena a princesa guerreira. Os meus amigos imaginários tinham todos séculos de anos. E para mim pronunciar "hermes" era como falar da vizinha de baixo do apartamento. Quando eu fingi que cresci e fui para o secundário, eu queria escolher grego, para ler as autobiografias dos meus amigos, mas as senhoras da secretaria disseram que não, e resmungaram inscrevendo-me em latim, só porque não havia grego (como se isso fosse uma desculpa aceitável). Eventualmente, deixei-me levar por aquela língua áspera, que o tempo se encarregou de suavizar nos romanços. Como um Nietzsche, queria filosofia, mas tornei-me filólogo, pelo amor das palavras que Tolkien me ensinou. E quando entrei no curso, mais e mais descobria, a cada dia, tesouros novos que o tempo escondia e as pessoas esqueciam. E quando comecei a falar na língua das coisas enterradas, percebi que o mundo não percebia. Então cheguei a casa - e chorei muito: não tanto porque não era entendido, mas porque ninguém entendia mais os meus amigos; e ninguém sabia a beleza que perdia. Ai, eu amo em demasia as coisas belas e devia temperar a minha alma desse amor! Não me desconvenci ainda de Dostoievsky: "A beleza salvará o mundo". Montei então uma resolução: cristo ressucitar os lázaros outros deuses. Quantos autores não mais lidos, quantas personagens que há anos que ninguém ama! Porque os deuses antigos não estão mortos, parte de nós (e da nossa civilização) é que morreu por não crer neles. Amemos todos os deuses como um ricardo reis e voltemos a encontrar homero como num conto de borges. Quando assentei nestas coisas, escrevi uma carta a todos os deuses, a convidá-los para virem aqui como a um café e inaugurar o clube dos deuses mortos. Chamei-os de todos os cantos e das épocas passadas e congregei à mesma mesa Loki e Atena, Epona e Ascânio, Artur e Tot, Izanami e Lúcifer, Kali e Quetzalcoatl, D. Sebastião e Zoroastro, vindos da Atlântida, de Mû e de Númenor: as terras mortas dos deuses matados. Gastámos os primeiros tempos a contarmo-nos mutuamente as nossas andanças e comentámos então a situação actual e o que se andava a fazer das nossas figuras, só para nos descubrirmos em livros e filmes e músicas. Foi então que Selene, já cansada de ser, disse precisar de dormir - e isso anunciava o fim da noite. Combinámos um encontro para daqui a mais cem anos, só para matar saudades: e no interlúdio, os deuses encarregaram-me de escrever.

Ilustração: Drawing Hands, de M.C. Escher (1948)

sábado, julho 14, 2007

Em Busca da Beleza Perdida §1: O Álbum da Tia Dulce

Mnemósine foi em tempos amada por Zeus - e o deus amante a protegia e salvaguardava. No dia porém em que Zaratustra desceu da montanha, Zeus morreu como as fadas. E doravante Mnemósine deambulou pedinte num mundo em que a hospitalidade não era mais um valor de glauco e diomedes - e não achou casa. O hedonismo moderno - porque é muito magro, quer na felicidade quer nas vistas - não comporta em si mais que o presente e limpou o passado para o armário de brinquedos onde escondeu toda a desarrumação do quarto na expectativa de que a mamã não o abra. Mas um dia - eram tantas as coisas escondidas! - as portas/o dique rompeu-se, e catapultaram tudo para o chão da sala. E a Memória era como um puzzle de seis mil peças (em que cada peça era um ano) por construir e ninguém sabia mais em que gaveta tinham guardado as instruções de montagem. Os homens perderam o hábito da lembrança no triste ritual del olvido. E as eras dos heróis morreram como leprosos, escondidas e um sino ao pescoço para todos correrem delas. Só mais tarde a humanidade compreendeu que tinha com isso perdido a sua linguagem, que não era feita de letras, mas de nomes, porquanto esses nomes - Heitor, Ulisses, etc. - tinham andado nas bocas antes sequer das letras. E todos se sentiram, subitamente, como uns brutos analfabetos. Carpinteiraram então seu barco e montaram uma expedição de argonautas para irem telémacos em busca dos antepassados. Os anos volveram, os homens não - e, pouco a pouco, todos se esqueceram. Um, porém, desembarcou a nado e de barbas longas correu nu arquimedes pela ilha a proclamar a luz e o engano. A mulher - que entretanto casara com homens mais bonitos - entrou para um convento e fez o marido frei luís, para fugirem ambos da verdade. Escandalizados com as coisas certas e antigas, os habitantes atacaram o odisseu, que levou consigo a maria por quem ninguém se interessava. E no ermo escuro onde se esconderam, maria aprendia fahrenheit 451 as mentiras míticas, que se movem noutra esfera dos seres, em que a beleza é um valor moral superior à verdade. E quando próspero morreu (foi dormir para outro lado), miranda converteu-se em circe e construiu um castelo onde guardou toda a magia de um mundo que não acreditava mais nela. E como um platão inscreveu na fachada do templo guardado por leões: "Não entre aqui quem não souber símbolos". Mas os invasores armaram-se de moli - só eles não sabem que a moli é apenas um outro nome para a planta dos lotófagos. Ai que o conto foi todo mal contado! Pois hermes não se acha na rota para o palácio, está ele sim dentro do palácio: e os afortunados que nele entrarem, desobedecerão às suas ordens e de noite vestidos de velas como psique olharão o seu rosto - e entenderão enfim a hermenêutica do mundo, queimando-se, apenas porque tocaram a luz. E era tão belo o rosto de eros, era tão belo o rosto de todos os deuses! Alas!, até Balder, o mais belo de todos, pereceu. Circe contou-me o caminho para regressar aos infernos e com a sibila de cumas descer lá. Perante Perséfone justifiquei-me, e arranquei do coração dela o consentimento que ela tem. Liderando a procissão dos deuses, que me seguiam, subimos, sob a visão do psicopompo, as escadas que todos eles tinham descido: e eu era a promessa de eles se libertarem. Mas a pandora em mim não resistiu (e a beleza dos deuses era tanta!), que - erro meu, desgraça de todos! - orfeu me voltei e olhei no rosto as mil e uma eurídices que lentamente hades raptou de novo para o ventre da terra que nunca as parirá ao fim de nove meses. Para quando a cesariana desse útero, Hefesto, para que dela saia atena (que é o conhecimento) como de zeus? Enterrastes no solo as minas e os talentos, geração de hipócritas!, e delas não rendestes nada! Mnemósine pedinte precisa do vosso dinheiro. Ontem veio-me essa mulher nua a casa, lavada de chuva. Trouxe-a para dentro, cobria-a a uma manta e dei-lhe um chá quente no bordo da lareira. Olhei-lhe os cabelos longos e castanhos, ondulados com água - e as gotas que lhe corriam pelo corpo eram como as lágrimas de um argo que chorasse os cem olhos ao mesmo tempo, de uma tristeza bruta. Tinha o rosto batido e estava magra dos homens a terem esquecido. As amigas, contou-me, diziam-lhe para esquecer isso: mas ai como?, se ela era a Memória! Conhecia ainda cada um dos seus ex-amantes e não superava essa dor de perda. Nunca mais ninguém lhe escrevera uma carta - mas ela também não tinha uma casa e uma morada para o endereço delas. Perguntei-lhe se queria mais alguma coisa depois de ter bebido a chávena, mas ela abanou a cabeça silenciosa. Era já tarde para ser amanhã (agora era hoje), e fui-lhe buscar uma almofada, deixando-a no longo sofá, dormindo. Deitei-me também eu no quarto, só para acordar horas depois e fazer a barba. Permitia-a dormir até despertar e levei-lhe o pequeno-almoço às pernas. Embrulhada no seu manto, deliciou-se com a torrada e lambeu a manteiga dos dedos. Retardei-me a lavar a louça, como se dalguma forma isso evitasse as coisas acontecerem. Ela já estava de pé, quando enxaguei o prato, encostada ao umbral da porta. Dei-lhe para as mãos um pequeno saco, com provisões. Enquanto falava com ela, neutral (só para esconder uma saudade que deixava cair nalgumas palavras), ela permaneceu cabisbaixa. Abri a porta e ela saiu pela soleira. Então, Mnemósine voltou-se (a Memória é uma deusa que olha para trás, um jano incompleto) e despediu-se - do manto, abrindo os braços témis sem balança ou espada. A sua figura nua desenvolvia-se da pedra da entrada com a natureza de uma flor graciosa, rodopiando as curvas proeminentes e maduras de séculos, na geometria feminina de um manara. E de um golpe, fechou-se sobre mim e beijou-me, com os seus lábios de espuma e algodão. Amámo-nos o dia inteiro - passara muito desde que ela fora amada pela última vez e mil anos de ódio - que é o nome que ela dá ao esquecimento - só se diluem com um amor multiplicado por eles. Quando por fim a noite bateu à nossa porta (e o corvo poe me veio anunciar disso), entendi que para exercer a nova caridade a velha hóspede tinha de sair: uma casa com uma cama é de duas pessoas. «Sine (assim abreviava o seu nome para pecado), eu não te posso guardar em minha casa: sémele não pode ver zeus - e nessa impossibilidade se têm de amar». Ela levantou-se dentre os lençóis, como uma toga imperfeita cobrindo-lhe um peito e uma metade, abrindo a outra à tentação. Nos seus lábios entreabertos e escarlates, incapazes de mentir por serem tão belos, murmurou: «Deixa-me então contar-te uma história antes de partir. Há muitas coisas que aconteceram no esgoto do Tempo sobre as quais tu nem ousas sonhar». Aproximei-me do leito nu e sentei-me, com as pernas e os braços e os troncos e os corpos e os sentidos colados entre nós. E enquanto eu lhe mordia de beijos o pescoço limpo, ela sussurou-me ao ouvido uma estória inteira no rumor baixo com que se sua amor. Quando enfim o corvo se viu substituído pelo galo, e a aurora de dedos róseos chegou, levantei o rosto de espanto e entendi ser agora tarde para soltar de mim Mnemósine. Não, eu não ousava de novo libertá-la em pleno dia e contemplar a sua beleza e resistir-lhe: sucumbiria sempre. Apenas a cobertura da noite podia lutar contra a desvelamento do manto dela. Embalado na narrativa dela, perdera as contas do tempo (que tem uma matemática irregular). Entretanto, ela iniciara já um segundo conto e o meu coração hesitava entre aquilo a que era mais duro e forte resistir: se à sua titânica beleza, se à curiosidade de saber o desfecho do seu encantamento narrativo. Deixei-a ficar para outra noite, em que ela me prometeu concluir o mito. Ela enchia-os de pormenores vívidos, como só Memória ela mesma, a que tudo sabe, porque tudo viu, consegue. Ela pariu o nosso filho pelas pernas, mas nascia as personagens pela boca. E naquela segunda noite, de novo me deixou suspenso na terceira lenda com que me prendia. E, uma vez mais, eu permiti-lhe ficar para o dia seguinte - e assim construí, por noites árabes eternas, a minha Xerazade. Este é o relato das suas estórias.

Ilustração: Mnemosyne, de Ian Marke (2006)

P.S. (póstumo): este era o texto que serviria de abertura ao Em Busca da Beleza Perdida, blogue dos meus amores mitológicos. Hermético, o texto exige um outro, mais explícito: é o post que se segue.

sexta-feira, julho 13, 2007

Primeira Curtada §3: Percepção

Quando jostein gaarder me deu duas chapadas para me acordar da cama da unidade do ser, a primeira teoria que desenvolvi nu e pequeno no laboratório branco do mundo foi descobrir o canto preto debaixo do tapete onde alguém despejou o lixo. Redigi então em microscópio um volume seminal intitulado A Teoria dos Opostos, assaz orgulhoso de ser complexo e total. Hoje percebo como, na realidade, eu ter perdido a minha unidade e terem-me criado alteres no ego não foi mais do que uma consequência da primeira dissolução da unidade do mundo que eu empreendi quando me revelei a existência dos antónimos de todas as coisas vivas e andantes. Aprendicebi-me hoje que, na abundância daqueles que percorrem o L&M, um, contudo, me houvera escapado, pelo menos na sua real forma. Mas, que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove no monte, para ir à procura da tresmalhada? No fundo, em tudo quanto tenho mais pensado do que escrito (naquilo em que melhor se entende a oposição entre a criança e o adulto, porquanto a primeira faz mais do que pensa), vejo agora, com nitidez, que a oposição base tem sido entre as pessoas e a arte - esta última apenas o disfemismo para o meu sonho. Ah!, que eu entendo finalmente a Verdade! Bendita maiêutica da escrita! Só no fim descubrimos o caminho que trilhámos, porquanto quando o percorríamos nem sabíamos ser um caminho. Compreendo por fim a divisão de alma que me assombrou o ano inteiro, ainda não de toda resolvida, porém, agonizante e só insistindo em tardar na morte para poder ditar-me o seu testamento. Este foi o tempo longo em que dentro de mim se digladiaram os dois titãs até ao triunfo do justo. Este é o tempo em que eles inda se combatem - é esta a encruzilhada que eu não quero resolver. No outro dia, fui assaltado de um violento de desejo (como daqueles que nos comem de tomar uma mulher) de largar tudo, de abandonar todos, e um mês resguardar-me da terra no ponto mais perto do céu e na montanha redigir - e no outro dia foi hoje outra vez! E, contudo, hoje ainda eu sentei-me num café e tinha a mesa vazia com o fantasma imaginado - porque era só uma imagem fabricada pelo meu desejo - da companhia que me faltou e com quem eu não partilhei a tosta mista, que, afinal, se mostrou una. Lembro-me de há um mês ter descoberto que não era tímido, mas tão somente sozinho: e fiquei com tanto medo de mim que me escondi num quarto escuro em hikikomori. Apaguei a luz - e nunca mais a voltei a acender. E um dia, os que me queriam bem subiram as persianas - e o sol entrou. De noite, contudo, a luz continua desligada - e a oscilação entre a noite e o dia não é mais do que uma perífrase para a dúvida que me atravessa, sem que eu escolha o lado certo da antinomia, mesmo depois de o ter escolhido. Sei que se escolher a luz ficarei cego (o sol ofusca e cega galileu), mas, porém, de que adianta ver a quem só calcorre os passeios de noite? "Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada." Deus, qual é a melhor parte?!

quinta-feira, maio 17, 2007

Primeira Curtada §2: Estória


Metáfora:
Quando eu era pequeno, existia um cinema na cidade sem cinema. Na praça jardinada confrontada com a Câmara, havia uma papelaria num edifício que tinha uma entrada. Aí, guardavam cá fora cartazes de filmes. E as pessoas achavam muito estranho que eu lhes dissesse que havia um cinema, que havia, que havia, havia, na cidade onde não. Quando cresci, descobri que era um videoclube. (talvez por isso eu não frequente videoclubes).

Mitologia:
Acredito que fui ver a Pocahontas ao cinema na Covilhã. Ninguém tem memórias disso, muito menos eu. Havia uma parede branca-creme numa subida que seria a fachada do cinema: só que esse cinema nunca existiu. Se eu fui ver a Pocahontas ao cinema, porque tenho o VHS?


Dúvida [Newton/Génesis]:
Um dia, se fui pequeno, vi umas imagens de olhos fechados. Do céu caía uma maçã. Havia uma rapariga também. Era um mercado como uma feira do livro e as bancas estendiam-se paralelas. A cidade tinha a cor de ser cinzenta e a idade de ser barroca. A maçã caiu num monte das irmãs. A rapariga colheu-a e levou-a à boca indiscriminadamente, passado já muito o tempo dela de três anos em que todos levamos a todas bocas todas as coisas na ânsia literal de devorar o mundo. Ela tinha, assumâmo-lo, dezoito anos. Trincar a maçã tornava-a um vampiro. Ia mordendo todas as pessoas no caminho como quem tira inglês o seu chapéu de coco e pergunta o audiudú e as ruas ficavam despovoadas, povoadas de corpos mortos. Por fim, numa rua calcetada, ao lado de uma estrada onde não percebo porque haviam de passar carros que não passavam - por isso, porque estava lá a estrada?, encontrava o namorado. O coração tremia-lhe, como corresse já sangue demais, sangue bebido, que o coração não conseguisse conter, como não se contém uma alegria muito grande. Saudou-o com um beijo como um ponto de exclamação. Tomou-se ele de um desejo e agarrou-a com emoção redobrada com a que dobram os sinos. O amplexo furioso/e o amor é uma virtude de canibalismo humano. Ele sopra-lhe ao pescoço/ela morde-lhe ao pescoço. O corpo cai como uma marionete. Uma lágrima de um olho corre, corre como um fio de sangue da boca.
Nunca soube e hoje não sei, se isto é um sonho meu ou um filme que vi quando era pequeno e os meus pais não souberam que eu o tivesse visto ou que eu era pequeno. Construí-me acreditar que foi um filme, mas, retrospectivamente, o argumento é um pouco fraco.


Trauma:
O meu primeiro VHS foi A Dama e o Vagabundo. Como as crianças da minha idade, fui um mogli e aprendi os valores e as pessoas com as bestas da terra que Walt animava para Disney. Quando me cruzei na rua com um cão, ele começou a ladrar no sítio em que falava e não disse uma palavra e eu não o entendi: assustei-me e fugi. Cheirando-me correr, o cão perseguiu-me e engordei o medo e estendi o passo. O meu pai ao longe gritava-me para parar. Apanhado do cão e do cansaço, segui a ordem e o meu pai eventualmente enxotou o cão como uma vaca. Todos os outros animais, quando cresci, aprendi dos professores de ciências (que se achavam invariavelmente mais espertos que o Walt Disney) que não falavam - ainda assim, os professores de letras insistiam em ensinar as onomatopeias.
(ainda hoje, guardo do cão a distância que a mulher guarda do génesis da serpente)

Biografia:
O primeiro filme que fui ao cinema ver foi o Hércules, na Covilhã, no Monteverde. Não tive na minha infância nenhum salgueiro que cortaram depois que eu emigrei, porque nunca houve nenhum salgueiro e eu não nasci na serra para emigrar daí e na serra, mesmo que eu nascesse, não nascem salgueiros. Mas depois que eu vi o Hércules, já não há hoje Monteverde: construíram o Feira Nova por cima, não como quem empilha caixas, mas as susbstitui de todo.
*
Ia ao cinema quando ia à praia. Uma vez por ano ia ao cinema. E quando eu dizia mar, confundia as duas realidades numa só e poupava o trabalho de dizer mais palavras. Ver um filme era crescer: a sala era no casino da Figueira. Entrávamos adentro do saloon (era só o hall, mas na altura eu não sabia e era feliz porque não sabia e em vez de saber imaginava, como remédio e remendo da ignorância) como fôramos muito adultos e engravatados e soubéssemos jogar poker, tudo não passasse de um western. Recordo de lá dois filmes, na sala para crianças (nunca cheguei a conhecer a outra, a papá, porque morreu e enterraram-na e os meus avós, preocupados comigo, não me deixaram ir ao funeral que não é coisa para tu veres, que é muito triste e soturna, o que é soturna, não interessa): Shreck e Astérix & Obélix, os uns dos dois. Quando ia para a praia de carro, passávamos na rua entre o mercado e o jardim à frente do tribunal e na parede havia um pequeno rebordo de vidro onde semanalmente mudavam o affiche do filme em cartaz, às sextas, quando o cinema ainda era às sextas-feiras (um dia, quando for grande, vou criar um ciclo de filmes na Gulbenkian com este nome). Hoje, o casino expulsou de si, como fosse alguma impureza, o cinema, desde que abriram salas no jumbo. Quando os pássaros no regaço da janela me contaram a notícia, entristeci-me e considerei enfim que o casino nunca amara o cinema, somente o tolerara, desconfortavelmente, como um sofá que foi um erro mas já custou muito dinheiro para ser devolvido e aceitamos. A dor que ainda hoje guardo, secreta, dessa mentira maior da minha infância.!
*


Aqui em casa somos três se eu não contar: o meu pai, a minha mãe e o meu irmão mais novo. Fomos, que eu me possa lembrar, quatro vezes os quatro ao cinema: A.I. - Inteligência Artificial, Harry Potter, À Procura de Nemo e Tróia. O meu pai é um cientista falhado, que por isso se tornou professor de direito. Ele tem uma biblioteca muito grande e, quando eu era pequeno, ajudava-o a catalogar as fotocópias no escritório estreito dele com rótulos que eram travalínguas (ex.: transplantações). Eu ia para a escola repeti-los e o professor, que não sabia o que significavam, chamou a minha mãe porque eu andava a chamar asneiras aos meninos. Eu gostava do Spielberg por causa do Hook que eu não sabia que era Hook e lhe chamava Peter Pan II. (havia, aliás, muitas coisas desse filme que eu não sabia, mas, coitado!, que havia de fazer senão fazer de que sabia?: só há um mês atrás, por exemplo, entendi finalmente a piada dos berlindes). O meu pai, que construía então um frankenstein chamado doutoramento, interessou-se pela premissa de A.I. e levou-nos ao Fórum de Aveiro que era, então, o sítio mais próximo com maior oferta cinematográfica. Fiquei amigo de David e prometi tratar-lhe do urso enquanto ele partia para a aventura de ser humano. As pessoas na rua ficavam a princípio encantadas, como o urso se tratasse de um sapo-príncipe, mas ao assistirem à sua voz adulta desencatavam-se do teddy. Eu gostava dele, ainda assim - eu gostava dele por ser assim. Um dia, ao passar no Cacuacu, o estranho quiosque verde plantado no centro da avenida da minha antiga casa, o urso apontou-me para uma revista magra nas páginas e no preço, Cinemania. A capa tinha o David e, como ambos ansiosos de mais notícias dele, corremos ao meu pai a pedir o dinheiro para o magazine. Pela primeira vez, eu li, com o teddy, cinema: os meus pés ainda não chegavam, sentado na cadeira, ao chão, e eu balançava-os como tivesse uma rapariga num baloiço num campo. Era grande o meu interesse de erudito; lia a revista muito compenetrado. A contracapa, porém, confundiu-me, a mim e ao urso, o meu tigre'hobbes: uns olhos emergindo do escuro, uma mão transversal, nela um anel, e uma legenda sinistra, anunciando o começo da aventura, e o nome O Senhor dos Anéis. Arrumei na gaveta do armário a revista e na gaveta da memória a contracapa. A mulher das limpezas, como sempre, na sua boa vontade, desarruma tudo e a mulher das limpezas foi o Público. Comentando a hype em torno da estreia lisboeta do filme, a jornalista relatava gigantes na multidão que erguiam, ditadores, a mão e o dedo apontando o cartaz erecto e secreto da contracapa reproduzindo. E as duas torres proclamavam: «That's the real thing.» Amuei: o henrique feiticeiro não devia ser assim subvalorizado. Vinquei muito o meu lábio como para fazer muito medo aos colossos da blasfémia: eles aguardaram.
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Cristo fundou uma igreja e um cinema, que do seu nome bebeu Messias. E como a Igreja caiu em ruínas, assim a casa-paraíso tombou, como se caíssa das escadas, na decrepitude da idade: pena de não haver lares e manicómios para os edifícios! Porém, dita das coisas reerguerem-se. E como a passos leves, como quem vai assaltar qualquer soalho, se restabelece, mais firme que antes, a planta de Cristo (que se convém chamar lírio), assim o Messias, que era carpinteiro, trabalhou nas obras de recrescer a sala de espectáculos olvidada pelos homens e pelo tempo. Por fim, pelo final de dois mil e um, o presidente da câmara (que é como o presidente da república, mas para regiões mais pequeninas: só servem ambos para inaugurar) partiu uma garrafa de champanhe contra as paredes amarelas do sítio. Houve um concerto muito grande e o cinema passou a ser às sextas, sábados, domingos, segundas e, às quartas, os filmes negros do apartheid cinematográfico: a produção independente. Hoje, foram todos colonizados - e já não há quartas-feiras (em compensação, criaram mais uma sessão, à quinta). O cinema-montanha, montanhas de cinema, viera enfim ter a maomé-eu, quando maomé não tinha fundamentalistas nem campos de futebol-execução.
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Eu desconfiava muito. Mas, de educação cristã, aprendi a não ter prejuízos, que são juízos feitos antes - sacudi o medo, como se fosse um cão todo salpicado de água, e pedi o primeiro volume da trilogia wagneriana porque tem anéis ao meu pai pelo natal. O livro, esgotado, transformou-se, para consolação - e futura bendição, no Hobbit (nome estranho! que será? mistura de reacção de espanto e curiosidade com a agridoce sensação de desapontamento por não ser a coisa que se esperou por godot). Estava na Covilhã - e ainda dizem que não há coincidências. Arranquei os olhos e colei no seu lugar, como se recortasse de uma revista, duas línguas - e assim não via, lia duas vezes ou uma só vez mas duas vezes mais depressa. Fechei o livro: e aprendera o significado da palavra épico. Puxei pela borda da saia da minha mãe, com os meus dedos pequenos e redondos, e pedi um gelado que se chamava cinema. O meu pai correu a buscar o jornal e eu sentei-me para embalarmos o jornal os dois: como um pêndulo, as páginas corriam, virando-se acrobáticas. Ali! O suplemento local. Era nas duas últimas páginas, mas era não ser. Retirei-me, semi-desconsolado, no exercício da virtude da paciência e da espera. Voltamos de carro, porque a pé, entre as duas margens de portugal, cansava e, acima de tudo, íamos carregados, e, sem burro, não era fácil aportar as coisas. Na Mealhada, trobetaram como um arrail por el-rei a data das bodas (bodas, porque havia um anel, como o dos noivos, e havia noivos, ainda que eu não soubesse bem ainda com quem me casava): 9 de Janeiro. O primeiro milagre do Messias foi no casamento de Canaã. Canaã era o nome da sala de cinema. Naquele dia, no altar que não havia, tive o espanto de ser filósofo em ser poeta de ver. E amei, entregue totalmente como uma rapariga indiana de doze anos, o cinema: e o Messias desfechou o cego.
*
Esperando o tempo em que o tempo que corre caia como maratona e morra, de-correu um ano. Voltei-me a sentar na sala, como se nunca tivesse saído de lá. E fiz duas torres, e duas torres eram dois postes, e dois postes eram uma baliza: queria ser realizador de cinema, fruto último da linha que de king kong produzira pedro, e de pedro me criara. Como neo-eureka: Schöpfung!


O Murro:
O dia a seguir ia ser assim de modo impróprio especial, que foi especial antes de ser o dia. O meu pai ia matar o frankenstein e eu ia-me casar comigo própio na senda da cabala aniversária. Há uma solidão premente que se acomoda, sacundindo antes a almofada onde se vai sentar, junto a nós, na véspera espera do dia grande, quase como esperássemos um comboio e inventássemos o jogo de tirarmos fotos um ao outro para passarmos o tempo atrás da máquina da coca-cola que está avariada mas tudo nesta estação também está a cair e tem de se pagar para ir à casa-de-banho são uns ladrões. Não tinha amigos que me organizassem uma festa de despedida de solteiro, pelo que subi ao sofá para ir à estante escolher um dvd para ler. Lembrei-me de uma provocação e de uma curiosidade e tirei o dvd novo, comprado há pouco, a(l)gemeado de outros dois. E assim, ergui Dogville. Não fui interrompido, porque estavam todos muito ocupados a rodos com o frankenstein que ainda insistia em viver (como aquelas pessoas das melhoras da morte que desempalidecem nas três vésperas de não terem amanhã). O filme deu-me um murro e eu chorei, porque mãe aquele moço bateu-me e tu não dizes nada. E eu tive de ligar à minha irmã, que não nasceu do meu pai nem da minha mã', e que nunca vira o filme e nunca levara o murro, a narrar-lhe em solilóquio a solidão e a experiência. E ela na sua sempiterna paciência, escutou-me e escoltou-me, a mim, desfalecido perante o horror humano, como uma pietá o cadáver de um cristo. Mundo-cão.


A Fundação:
Não sei se já tinha começado a morrer, nessa altura. Porém, já tinha sido, por certo, internado. Nesse período da minha vida, tive uma só enfermeira, daquelas jovens, a quem eu, por não ser velho, não mandava piropos e ela, por eu não ser soldado, não queria namorar: por isso nos compreendemos - porque nenhum queria nada do outro, senão a amizade. Quando o sol batia pelo meio-dia na janela, entrava ela, única visitante dos meus dias de doente. Os raios incidiam pelas frestas da persiana, e uma luz etérea emoldurava o quadro da nossa composição. Zelosamente, ela começava por substituir as flores na vasa da mesinha de cabeceira metálica branca, ainda que as flores fossem sempre as mesmas, lírios violeta: ainda assim, o verbo substituir pode-se, com correcção criativa, aplicar. Ela puxava a cadeira de madeira para o sopé de mim, e contava-me coisas consoladoras. Um dia disse-me que eu tinha uma camisola muito bonita, uma camisola azul clara, e eu senti-me o rapaz a quem o avô ensinou a pedalar na bicicleta na quinta grande e verde da infância fabricada. Quando hoje visto a camisola, não sei se hoje ainda visto a camisola, não me lembro da camisola no armário: a camisola passou para o meu irmão. Lembro-me de ser bonito no tempo em que eu vestia a camisola azul clara. Todas as raparigas, que eram Ela, confessavam-me o céu no peito e eu acreditava tomé na fé que me diziam sem nuvens. Hoje, porque não tenho beleza, fugiu-me das mãos também a camisola como quem desliga a luz de um quarto onde não está ninguém. Mas nessoutra altura, eu era ariano na ironia dela ser mulata. Ela praticava o curso de enfermagem de alma na esteira da minha cama; escoltava-me as mãos, escondia-me os medos e adormecia-me os sonhos quando acordava a meio de pesadelos em que o monstro era eu. Eu tinha eu tenho muito medo. E era grande na falta de confiança própria, um alexandre magno. Eu andava, já então, na fisioterapia da alma. Mas a minha alma teimava mole porque era dura: ela tentava corrigi-la e borratava a folha de teste do meu coração e ficava muito feio, tudo riscado e com má apresentação e os professores descontam. A minha alma era uma grande pedra de carvão: e como todas as pedras era casmurra em mudar de forma e estado, e como todo o carvão, ardia - e no arder, se desfazia. E as duas coisas coabitavam com a naturalidade de surgir um arco-íris quando faz chuva ao sol.


Um dia, porém, ela não me trouxe flores e não as cultivou no vaso à minha cabeceira. E eu perguntei-lhe, assustado «Mulher, porque te esqueceste das flores?». Ela voltou o seu rosto para mim, sorriu, e abriu-me as mãos dela: e no lugar dos estigmas, estavam flores. Levou a mão esquerda ao peito esquerdo, tirou a veste, mostrou o seio: e no meio, onde a lança a trespassara, florescia uma magnólia magnífica. E eu percebi finalmente que ela não vestia de branco porque fosse enfermeira, mas porque eram os lençóis do leito da sua convalescência. E imperatriz senhora ordenou-me: «Levanta-te, pega na tua enxerga e anda!». E eu, envolto ainda na mortalha (que só tombaria alguns anos-semanas depois), ergui-me e compactuei e enterrei a espada que guardava debaixo da almofada em mim mesmo e de cesariana pari, nado morto, a raposa espartana do medo que me comia debaixo da minha capa que deixava entrar o frio na mesma. A raposa era feia e era um dragão e acertei-a no coração. Ela deu-me a mão no tempo inicial: sabia que eu custava-me ainda de pé. A cama ficou lá, e nela estendida a minha cobardia, até ao dia em que a for render, até ao dia em que me render a ela. Um fantasma nunca morre.

Variedades:
A minha promiscuidade mental diletante escreveu o meu nome na lista de passageiros de todos os navios do cais e eu ainda não decidi em qual vou embarcar, porque já partiram todos.


Moralidade & Resumo:
Quando saímos da Arquitectura - há aí um certo claustro, que os monges, depois da expulsão da república, largaram de cuidar e apadreceu até ser verde. No meu calão imaginário, chamo-lhe central park, porquanto fica no centro do edifício. A Esfinge de Olhos Azuis tem enigmas para um Édipo. Escuto a rapariga, que guarda uma cidade e uma mulher. Ela promente-me vitória e aliacia-me: a Esfinge de Olhos Azuis praticou cardiomancia, e sabe-me o sonho e o amor. Mas, ai!, ela desconhece-me o temor, que me cala os lábios na presença das mulheres que amei sozinho. Eu já fui, ah!, em tempos (lembras-te, criança em mim, criança sou, quando ainda não éramos e éramos infinito pela inexistência?), um grande Alexandre, nos monólogos de Hamlets que converso comigo. Mas Alexandre ainda construiu um império, e os dois Hamlets ainda mataram, um Polónio, o outro o Tio. Eu concebo tudo isso - e na minha imaginação já fui até, num breve lapso de sonho, feliz - mas invariavelmente quando acordo não tenho ao meu lado uma flor azul. Os meus sonhos são as amadas dos contos de Poe enterradas vivas. Porque eu, ai eu!, nunca firmo nada, do medo de me ferir. Tenho uma lança na areia da praia deserta e não cacei a besta com medo de cravar a lança em mim e morrer. Morri na mesma - mas de fome. E a Esfinge de Olhos Azuis, quando me fazia a proposta, recebeu de mim (que, no meu íntimo, temia já ficar cego) a negação que é só a fuga. Eu desci as escadas depressa, envergonhado de mentir a verdade.

*
A cara ardia. A deusa-jovem dera-me uma bofetada como um murro. O rosto de perfil pelas leis cinéticas do embate e o lado e a orelha consternados de vermelho. Hebe não me serviu à mesa, na arrogância de uma matrona. Erguendo o cálix santo gral, desvelando a visão dele, borbulhante do leite de hera, sua mãe, que ela levava ao marido (que sou só eu, noutra encarnação), proclamou, solene, as palavras: «Não beberás deste copo enquanto não o quiseres.» De joelhos, ante a visão irada da mulher, respondi religioso: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, seja como eu quero.» E eu bebi o cálice e Hebe mandou-me a tebas de volta, ela que sabia que tebas existia. E eu peguei na minha lança na praia e espetei-a no coração da esfinge que soltou um urro e fugiu para o egipto. Num momento de lucidez de ícaro entendera que édipo ficar cego era um preço menor de ver o sol, por paradoxal que pareça. Deram-me a mão de minha mãe, que é a rainha: e a aliança foi reconhecida pelas testemunhas. Um peso impende sobre mim: fazer-lhe filhos deste casamento. Temo de mim para mim a prole deficiente do incesto. Que descendência empresto? Só os irmãos que se Caim. Eu sou a minha própria descendência e a minha obra é-me afim: 'homicídio incestuoso! Porque é que temos de nos matar sempre? Deus, ai Deus!, livrai-nos de ter de haver uma antígona! No fio da sua inexistência, trapezisto a minha esperança. Não me a tires, Senhor!: é tudo o que tenho contra o medo!.; Não me atires, Senhor: é disso que tenho medo!

17-2/17-5 (2007)