quarta-feira, agosto 27, 2008

Quoth the Raven §6: I Sound My Barbaric YAWP Over the Roofs of the World



"make this not just another poem that I write,
not! just! another! poem!

above all above all above all above all
like just another night that sits heavy ^ of us,
w a l k i-n-t-o> it, breathe it in
let it crash through the halls of your arms
like the millions of years of 1.000.000s of poets,
coursing like blood, pumping and pushing,
making you LIVE,shaking the dust shak i n g the dust."
Anis Mojgani, Shake The Dust

sexta-feira, agosto 22, 2008

Howl's Moving Heart* §1: Post|Postal

O meu olhar desce aos postais em minhas mãos achados. «Que farei eu com estes postais?». Seria bom, Pessoa, se fosse tão fácil erguê-los e fazer-se assim tudo como um henrique: não é. Eu sei para que os comprei: para mentir. Tudo suaria normal (e o suor cheira mal), uma demonstração de afecto enquadrada nos limites correctos da relação. A vantagem de ter tantas regras é que tudo aparece certo porque ninguém pode decorar a constituição inteira e os comentários do canotilho juntos. O que é que eu faço aos postais agora (até são bonitos claro que são bonitos eu esmerei a sua escolha como um bouquet de flores). Dei talvez coisa de um euro por cada um. Têm a criatura estampada com aqueles olhos de wall-e e a cabeça de um tubarão-martelo. mas é querida.
a hipálage é o recurso de estilo mais utilizado pelos amantes.
o que é que eu faço a isto? já não servem para aquilo que os comprei ou eu já não sirvo para a mentira que pensei. Ninguém daria por ela e era uma coisa menor: passar indistinto o que tivera, na realidade, um cuidado enorme por detrás (como aqueles souvenirs aborrecidíssimos, que nos custam uma fortuna mas a gente vai a oferecê-los e as pessoas recebem tudo com um sorriso e agradecem muito o terem-se lembrado de mim foram tão queridos obrigado mas remomoram por dentro porcaria: isto nem dois chavos vale) - há souvenirs assim -. Um gesto entre duas pessoas são sempre dois gestos. Ninguém vê a mesma coisa (os olhos são outros). É possível esconder muitos significados sob um gesto como camadas de lama sobre a pele (os ogres são como as cebolas, burro). Deixa estar. O que é que eu faço a esta porcaria de postais?
Já não são para ninguém.
Eu já não sou para ninguém também.
Vou ficar com eles: pode ser que nos demos bem.

O mais engraçado, é que para não mentir, a mentira ainda vai ser maior. Que imundície.

*Howl's Moving Heart é uma nova categoria interna do blogue que reúne desabafos explicitamente herméticos, com o objectivo declarado de o seu sujeito não ser, de todo, entendido pelo leitor. Existem porque têm de existir, porque a pressão do momento o declarou. São, na Varanda, novo objecto: um espelho, cujas costas opacas estão voltadas para os transeuntes e o lado espelhado para mim, num egoísmo de propósito. Porque nunca se deve confiar num espírito romântico, é possível que um dia chicoteie o espelho para o partir e os cacos chovam para a rua, com o sol a poli-los de luz pelo caminho. Depois não há aqui nada. O nome da secção é roubado alterado a Miyazaki. Howl, escondo-me aqui no meu túnel, sozinho, negro: Sophie partiu.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Moleskines §12: Guess Who's Back, Back Again, Shady's Back

1.
e o sexo feminino:
O filme continua em pré-produção, com estreia prevista para 2009 (apontado a Cannes?). Charlotte Gainsbourg, que já era bela n' A Ciência dos Sonhos de Gondry, é a mulher escolhida para sofrer. O cinema de Trier habitava a tempos os espaços do terror: agora arrisca-os inteiros. Entrementes, continuamos lusitanos à espera da estreia local de The Boss of It All (2006).

2.
"A companion book created in conjunction with Neil Gaiman was also mentioned, but very few details have come out since. Roadrunner Records has since confirmed that the book will be a book of photography. Photographer Kyle Cassidy confirmed on June 30 that the book would be written by Neil, with Kyle laying out, designing and supplying photography for the book."
out: 16/09/2008
(escutar aqui)
e eu vou estar lá.

terça-feira, julho 01, 2008

Quoth the Raven §5: Como os Escritores Amam

"Não há palavras para descrever o ar matreiro do escritor português quando anunciou a María Kodama que lhe ia colocar duas questões "muito íntimas". [...] "Como é que Borges dizia que te queria?... Explica-nos, explica-nos!" [...] Kodama ria-se ao inicio e depois já estava às gargalhadas. "Que palavras utilizava para dizer que te queria...", continuava o autor português. [...] Maria e Jorge usavam vários nomes, a maior parte ligados à literatura. "Um desses nomes era tirado de um conto que ele me tinha dedicado em segredo e que se chama Ulrica. Quis gravá-lo no túmulo em Genebra e em lugar de María Kodama e de Borges coloquei o epitáfio 'De Ulrica a Javier Otárola', porque eram nomes muito especiais para nós. Ulrica vinha também um pouco da Elegia de Marienbad, de Goethe, que ele me recitava em alemão. Ulrike von Levetzow era o nome da jovem amante de Goethe e quando ele fazia amor com ela contava as sí la bas nas suas costas, acariciando-as com a mão. Bem, já está dito."
María Kodama, viúva de Borges, e José Saramago,
à conversa na Biblioteca Nacional, 20 de Junho de 2008.
ilustração: Borges, quando novo.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Bloguística §5: Nip/Tuck na Varanda

Novo cabelo, novo blogue. Não sei se existe alguma correlação entre as duas realidades (hume não acreditaria nisso). Desde que o ano acordou, que, de facto, alimentava este propósito de renovar o Varanda, ainda que temesse que, bruxa de hansel e gretel, o alimentasse só para o devorar, e a coisa morresse sem ter sido: tenho menos confiança em mim do que nos restantes homens. Algures na minha infância (da qual não conservo memórias: por isso a estou a viver agora, aos quase vinte), devo-me ter traído a mim mesmo, bruto. Joguei fora a criança e os seus sonhos e descumpri as promessas de felicidade que tinha feito a mim mesmo. No final, reduzira-me, enfim, a um adulto. Crescer, de facto, não é mais do que isso mesmo: trairmo-nos. Jaz morto, e apodrece, o menino que queria ser escritor e não desarmava daquilo e fazia birra por isso como aqueles garotos impossíveis que berram às sirenes por um gelado. Queria o miúdo ser poeta!: devia ter sabido que esses - aqueles que os deuses amam - morrem cedo. O rapaz, de facto, morreu jovem: morreu de suicídio. Matou-o o eu futuro. O futuro lida muito mal com o passado: está sempre a pedir desculpas por ele (ainda agora, recentemente recentemente, o ministro australiano pediu desculpa aos aborígenes e aos boomerangues). O passado faz uma comichão terrível ao futuro. Não foi sem visão que Gaiman, quando quis honrar a criação, lhe deu o endless de destruction. As coisas novas amam desembaraçar-se das velhas: um ano novo, por exemplo, nunca começa sem que o outro acabe primeiro. Nada de misturas nem de incestos entre os dias.
Eu queria portanto mudar o blogue. A Varanda, de facto, era uma casa abandonada, como a quinta em ruínas da minha bisavó onde tricotam as heras a passar o tempo. A Varanda parecia uma bela adormecida, com um século de dias em cima sem ser escrita (até mais, bem feitas as contas). Isto sempre estivera no meio do deserto americano. A Varanda era um hotel do norman bates: não tínhamos ninguém, e, quando, por sorte, alguém aportava (isto é, batia à porta), assassinavamo-lo no duche, com a incompreensibilidade do nosso idiolecto. A mulher nunca mais voltava (sim, o nosso público era essencialmente feminino - sempre me dei bem entre as mulheres, como um almodóvar). Depois eu tinha esta fixação: todos os meus textos tinham de ser um testamento, porque eu podia morrer no dia a seguir. Por isso eram todos muito longos e escorregavam muitos minutos a escrevê-los, às vezes horas. Por fim, havia um um fantasma que assombrava o sítio: a universidade. Ora eu sou muito supersticioso: bato sempre três vezes na madeira quando tenho um pensamento que não quero. Eu tinha por isso muito medo de visitar a Varanda. Isto com os mortos não se brinca: e há saber mais morto que o das universidades portuguesas?
Mas veio o ano novo. Quando vem o ano novo, as pessoas fazem sempre muitas promessas e resoluções. Quando era criança, eu julgava mesmo que o ano novo era um deus e por isso escrevia ano novo com maiúscula, assim: Ano Novo. As pessoas, quando ele chegava, arrependiam-se do género de vida que tinham levado anteriormente, e decidiam emagrecer, ou deixar de fumar, ou passar a ir ao ginásio, ou - coisas bem mais sérias, que nem jonas em nínive teria conseguido! - fazer as pazes com a mãe com quem já não se fala há anos, ter um filho, mudar de emprego, emigar até. Era um deus muito poderoso, para que as pessoas se convertessem assim, por certo. Eu vendo todos os adultos assim, perguntei à minha mãe se podia fazer a mesma coisa, como quem de olhos de gato das botas pede um gole do copo de champanhe. A minha mãe consentiu e eu alegrei-me. Para aplacar o deus, dei-lhe as minhas doze favas (eu nunca gostei de favas) e para cada uma ia formulando um desejo: e eu desejei, como um aladino para o génio: quero um blogue novo.
Levei então o Varanda ao Nip & Tuck. «tell me what you don't like about yourself», perguntaram-me. Eu respondi a minha vida, mas eles não se voluntariaram para me matar e reenchaminharam-me para a holanda. Porque aquilo ficava longe, mostrei-lhes o blogue. Falei-lhes do que não gostava, do que se podia melhorar e eles concordaram com tudo. Disseram-me que levariam algum tempo, mas que a coisa se curava: só não se curava a solidão. Fizeram então obras na fachada (era parte do programa de recuperação da alta da cidade). Estava, de facto, mais belo, com qualquer coisa de jovial. Até lhe tinha saído o ar macambúzio, o preto carregado de luto por nem sei quem. Voltava à cor primeira, como nascera: branco. Fiquei feliz com o trabalho, e limpei o suor com as mãos, para estas parecerem que choravam de alegria pelo fruto delas. Satisfeito com a Varanda, mudei para lá as coisas todas, até porque há muito que vinha acalentando este desejo de passar as noites ao relento, com as estrelas por tecto.
Como israel, mandei regressar a mim os judeus, os posts da minha diáspora. Alguns preferiram continuar onde viviam (isto de emigrar é bom quando se é jovem), mas muitos, ainda assim, vieram. Vieram os filhos do Em Busca da Beleza Perdida, d' O Rei de Ítaca, do re-bobina, do Ars Scientia e da Primeira Curtada. Ficaram arrumados os laconismos e as crónicas: os móveis eram demasiado pesados para os mexer para a Varanda. Estava tudo porém numa confusão agora: tinha o microondas na Varanda ao lado da trouxa de lençóis. A Varanda, como a carteira de uma marry poppins, tinha-se esticado até tudo caber lá, mas era preciso organizar as coisas. Não devia estar animado para a empresa: sempre gostei de ter tudo muito organizado, mas nunca consegui trazer ordem à minha vida, para começar. Resolvi adão dar às coisas nomes e juntá-las por grupos, para que se aquecessem umas contra as outras (dormir na Varanda é uma coisa gira, continuo a repeti-lo, mas faz muito frio, como no deserto - e a Varanda está ainda num deserto). Casei então os posts em categorias:

QUANDO EU ERA PEQUENINO. O baú onde guardei os primeiros vestígios da minha actividade cibernética, os posts mais dignos do meu primeiro blogue, o Noites de Inverno. Acabei por acrescentar p.s. póstumos, para esclarecer evoluções. O nome, levei-o dos Quinta do Bill.

THE COAST OF UTOPIA. Ruínas d' O Rei de Ítaca. Ruínas, não: fundamentos - novos pilares se hão-de erguer: porque a utopia tem de ser possível. Tenho de Stoppard a autorização para usar o título da trilogia dele.

BLOGUÍSTICA. Entradas sobre a Varanda e o seu aprumo (isto de manter a Varanda limpa custa muito).

MOLESKINES. Pequenas coisas (ou grandes), pensamentos soltos: a encarnação daquilo que um blogue, na sua forma mais pura, deverá ser. Um moleskine versão online.

AND VIDDY FILMS I WOULD. A frase é da fabulosa Laranja Mecânica, quando Alex vai para o seu «condicionamento», metáfora de tanta coisa, mas muito também do cinema. Que nome melhor para um espaço sobre a sétima arte? Há aqui muito do re-bobina.

SPEAKERS' CORNER. Nunca lá estive. Mas esta é a minha tribuna, donde prego e proclamo. Quem lê, porém, não esqueça: «Bem prega Frei Tomás: faz o que ele diz e não o que ele faz».

QUOTH THE RAVEN. Espaço de citações: o nome, emprestou-mo Poe (quoth lembra quote).

PRIMEIRA CURTADA. Os posts do blogue homónimo. A crescerem num futuro a médio prazo, quando o projecto que os suscitou pular para a frente como canguru.

EM BUSCA DA BELEZA PERDIDA. Os posts do blogue homónimo. Sítio sobre a mitologia & as lendas, que os homens resolveram esquecer, que nós queremos recuperar. Porque, como dizia a insígnia do blogue: "O mito é o nada que é tudo".

Nem sempre as classificações são rígidas (e há outras, já reveladas ou ainda por descobrir). O Ensaio Sobre a Recepção dos Filmes está não no And Viddy Films I Would mas sim no Speakers' Corner. Digamos que são mais indicativas do que dogmáticas. Doravante, quero escrever mais - mas talvez menos. Mais posts, porém mais breves: tentar, dalguma forma, tornar este blogue num espaço ameno, esplanada agradável a que se venha com gosto e regularidade, só para entre dois cigarros esgotar dois dedos de conversa. Desde o início que o Varanda foi construído para ser, entre os meus mil e um blogues (tantos quantas as noites de Xerezade), o blogue, aquele que agisse enquanto tal, e verdadeiramente encarnasse o espírito da rede, da sua informalidade, da sua rapidez. Nunca tal aconteceu - nem vos posso prometer que tal aconteça, mau grado os meus bons desejos. Eu não confio em mim mesmo, comecei por dizer. Continuo a não confiar. A parte mais fácil da reestruturação do blogue está completa: era o simples nip & tuck. A mais difícil só agora começa.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Em Busca da Beleza Perdida §6: O Erro de Virgílio

Sentei-me à secretária e abri as folhas. As palavras do poema encravavam-se entre os apontamentos manuscritos das aulas anteriores. Olhei os versos novos a traduzir. Bucólica Quarta, Virgílio: a falsa profecia cristã, em que se previu o Menino ("... modo nascenti puero, quo ferrea primum/desinet ac toto surget gens aurea mundo": "...ao menino que vai nascer em breve, com cujo nascimento/acabará a geração do Ferro e surgirá em todo o mundo a do Ouro") - que não era senão, coisa banal!, o filho do mecenas de Virgílio, Asínio Polião. Fiz o sésamo do dicionário (mesmo sem ser ali babá) e inicei a versão. O homero romano, fervoroso, enunciava como uma lista de supermercado as coisas grandes da idade do ouro, cuja vinda acompanharia o nascimento da criança mágica. E tudo seria, na sua descrição exultante, uma ilha dos amores (menos erótica, porém - isso, foi invenção sábia e boa de camões). Foi então que li os versos errados (cujo início, de resto, lembra aquela linha má de Cícero, quando este pensou infamemente que era poeta): "cedet et ipse mari uector, nec nautica pinus/mutabit merces: omnis feret omnia tellus" - "O próprio armador renunciará ao mar, nem o pinheiro naval (=navio)/há-de transportar as mercadorias: toda a terra há-de produzir tudo" (na tradução bela e latina do Pai-Santo Agostinho da Silva: "Ninguém mais haverá de marinheiro/e nave alguma transportará cargas/pois toda a terra tudo nos dará"). Virgílio, Virgílio!, que loucura foi essa que te tomou? Atou-te a trapaceira Ate (Aτή), (na trapaça só se compara a Eros: os dois - poucos o sabem - são gémeos falsos), a deusa do Erro, a de delicados pés que caminha "sobre as cabeças dos homens" (Il. XIX, 93, trad.: F. Lourenço). Virgílio, que damásio para o teu erro? Reli os versos, verifiquei a tradução e confirmei a insensatez: queria Virgílio um mundo sem mar!. Ponderei nas razões disso ser. Como um truman show, o pai dele devia ter-se afogado sob o olhar impotente do filho: doravante, não mais Virgílio foi capaz de construir castelos de areia, pelo receio das marés. Não raramente lembrava aos seus amigos, quando, em conversas de café, gozavam divertidos com a sua fobia, que a atlântida tinha morrido submersa (ele não sabia que, de todos eles, só mesmo asínio polião acreditava em platão). Depois o magister deu-lhe a ler hesíodo - e ele convenceu-se definitivamente da maldade do mar. Gastava as tardes livres no atelier a desenhar mapas do mundo e a requintar de monstros os mares vários (os cartógrafos medievais, de facto, pouco outro fizeram senão copiar meticulosamente as quimeras aquáticas do amedrontado Virgílio). Um dia, porém, Virgílio apaixonou-se: e a rapariga eleita nascera, como uma afrodite, do mar. Morava numa pequena cidade costeira, onde guardava uma uilla. Virgílio amou-a: mas ela amava o mar. Quando já sabiam contar dois meses de namoro, convidou-o para ir a casa dos pais dela, almoçar e conhecê-los. Ele assentiu. Quando a comida já estava encerrada, ela resgatou-o e levou-o para fora de casa com o egoísmo de o ter só para ela. Calado e amado, ele seguia-a. Foram ter à praia. Num gesto só, Virgílio apertou-lhe a mãe com força, como dois namorados. Ela, porém, não podia compreender que Virgílio procurava somente segurança, como uma criança à mãe. E, vendo naquilo um anel de noivado, Júlia, filha de Júlio (assim se chamava ela), encardiu os lábios dele com um primeiro beijo. Como uma abelha soltando-se da flor, desapertou os seus lábios dos dele e tingiu-os num sorriso. Nos olhos, apascentava o amor. Como quem se livra de algo incómodo, um peso aborrecido, desprendeu o vestido e deixou o pano mostrá-la. Abaixou-se e libertou as sandálias. Virgílio contemplava-a e via-lhe o corpo, delgado, vincado, em graça. Ela sussurrou-lhe ao ouvido, oferecendo-se-lhe inteira. E então correu para o mar, os pés descalços e pequenos sobre a areia que a corrida levantava como um aplauso, o corpo nu contra as ondas - mergulhou. Virgílio apoquentou-se, primeiro porque ela não aparecia; depois que ela emergiu, porque lhe pedia o mesmo compromisso e dar razão a Tales, fazendo toda a vida nascer na água. Virgílio sentia o desejo - e sentia o medo. E, como sempre que esta balança se organiza para os cobardes, triunfou o último. Sem voltar costas, Virgílio começou a recuar, até correr depois como um judas a quem os sacerdotes não aceitam a devolução das trinta moedas. No mar, a filha de Julho fez-se inverno - e chorou, incompreendendo. Apolo, deus mau, vendo-a então nua, e desprotegida de Virgílio, desceu dos ceús, consumido pela pulsão baixa, o libido. Deus parvo, atirou-se à água e nadou furiosamente para ela, para a tomar. Nos olhos dele ela reconheceu o seu perigo. Aflita, nadou mais e mais para dentro de água, mas o deus, como um cão perseguindo uma rapariga pequena, aproximava-se também mais e mais dela. Quando, enfim, apolo, o deus mínimo, estava prestes a agarrá-la, Zeus, compadecido, com o consentimento de ovídio, deixou crescer à rapariga uma cauda de peixe, para que fosse mais célere que febo bárbaro, e se mantivesse pura: assim nasceu a primeira sereia (a mesma por quem, muitos séculos depois, hans christian andersen se apaixonou). Virgílio jamais a recuperou, e o mar ficou-lhe a dever o pai e a amante. Furioso, o poeta mandou erguer uma torre altíssima, com o limite, contudo, de do seu topo não se conseguir ver o mar. Aí se fechou, imerso no elemento aéreo, longe do seu inimigo (porém, por respeito para com o deus, todos os dias, para não julgar o nume que ele o ofendia, oferecia hecatombes a posídon). De acordo com um testemunho oral de um escravo de Virgílio, a torre era também toda ela desprovida de janelas, para que jamais sucedesse o poeta contemplar sequer a chuva, que engorda os rios e engravida o mar. Assim, na ira, morava Virgílio - e, movido por esse ódio, escreveu as severas palavras da Bucólica, proclamando o mundo do mar dispensável, esquecido de que, no início, o espírito de Deus se movia sobre as águas. Por fim, Virgílio morreu, e foi para o Hades, onde o encontrou Dante. Ai, Virgílio, Virgílio! Viveste já tantos séculos entre o fogo: deixa-me mostrar-te a água eterna! Um dos grandes mistérios da humanidade (como stonehenge) é saber como Beethoven, o Grande, compôs a Nona Sinfonia, sem jamais, na sua vida, ter algum dia contemplado o mar. Frequentemente acho-me na Varanda a meditar sobre esse puzzle. Conheces, Virgílio, aquele quadro do David Friedrich, Monge à Beira-Mar? Creio ser das coisas mais belas que o romantismo pintou. O mar, Virgílio, é a forma material da metafísica; ali, derrama-se a transcendência, liquefeita. "Toda a terra tudo nos dará": quem te plantou esse engano: Nietzsche? O próprio engano, nota, é uma coisa da terra, que é opaca e enlameada; não do mar, transparente e limpo, onde não há hipocrisia. Sabes, Virgílio, em última análise (deixa-me confessar-te este segredo), se a Odisseia triunfou sobre a Ilíada, foi pelo seu cheiro a sal (e o sal, diz-se, é um condimento indispensável para qualquer receita). Virgílio, tu nunca poderias ter descoberto a índia e inventado o preste joão. Vou-te narrar uma estória e, como esopo, dela tirarás a moral: Júlio Verne quis, quando jovem, partir para o porto e embarcar, para conhecer o mundo - o pai, porém, apanhou-o e proibiu-lhe expressamente algum dia fazer-se marinheiro. Desgostoso disso, estudou afincadamente, lendo as revistas da netional geographic, as curvas do mundo (o mundo, enganam-se os que dizem ele ter cantos: é feito, sem dúvida, de curvas - parecem-se esquecer da verdade fundamental: o mundo é uma mulher). Foi assim que viajou sem barcos e escreveu tais livros que os homens todos quiseram acreditar que ele necessariamente tinha visitado quanto descrevia - mesmo se esse crença deles era uma mentira. Mas, Virgílio!, tu nem desejo tens de conhecer a solidão do mar! Já Ismael, o escriba da aventura da baleia branca, dizia que, sempre que tinha vontade de se matar, em vez de o fazer, embarcava num navio para afastar esse vento nefasto. Olha, Virgílio, o exemplo do marinheiro de Malta: ele é livre e belo - de facto, o mar é possivelmente, como ele nos ensina, o último reduto para os românticos, a planície ainda não conspurcada pelo homem e pelas máquinas, o território, arejado e anarquista, sem estado. (Corto, Corto!: quando poderei ser tu? empresta-me ser-te pelo menos umas décadas, só até eu morrer de morte). Os sonhos, formam-se no mar: lê o quinto volume do Sandman. Não é a despropósito (na língua, tudo é ponderado) que mar parece a etimologia de amar. Tétis, senhora dás águas, não esqueças!, deus à luz aquiles: grandes e poderosas coisas obra o mar! A minha primeira lição de grego, foi, crê-me!, à beira-mar. Virgílio, Virgílio: vês agora, manifesto, o teu erro?

Escuta!, ouves?, o grito verdadeiro: Θάλασσα, Θάλασσα!

quinta-feira, outubro 11, 2007

Em Busca da Beleza Perdida §5: Helena: Narrativa de um Enamoramento [primeiro rascunho]

"Foi então que ocorreu outra coisa a Helena, filha de Zeus.
No vinho de que bebiam pôs uma droga que causava
A anulação da dor e da ira e o olvido de todos os males.
Quem quer que ingerisse esta droga misturada na taça,
No decurso desse dia, lágrima alguma não verteria:
Nem que mortos jazessem à sua frente a mãe e o pai;
Nem que na sua presença o irmão ou o filho amado
Perante seus próprios olhos fossem chacinados pelo bronze.
Tais drogas para a mente tinha a filha de Zeus..."

Odisseia, IV, 219-227 (trad. Frederico Lourenço, Cotovia, 2003)

Comecei enfim na semana passada a ler a bendita bem-escrita Odisseia. Hoje, retido por doença em casa como uma suu kyi por uma junta de assassinos, aproveitei o tempo breve para avançar alguns cantos, encerrando a primeira parte do poema, conhecida pelos classicistas como telemaquia, por se centrar na busca de telémaco por seu pai, ulisses. Relembro mal a Íliada. Da Odisseia, porém, desprende-se uma ligeireza e agradabilidade, um sentimento encantatório e simples que consola o leitor como uma bebida de helena. Estranho que a droga da princesa de tróia não tenha ficado proverbial, e dessa realidade não tenha o tempo forjado (cronos é um hefesto) uma expressão como "calcanhar de aquiles" ou "canto das sereias". Não sabia que a filha de zeus se disfarçava de circe e só na fonte primeira, o pai homero, pude beber essa poção. Taça deliciosa! Não cabe em nós receá-la. Ela oferece o mesmo poder que o sonho: sem eliminar a memória, suspende-a. Espantalho efémero da tristeza.

Helena encantou-me. Desconhecia que a "tripla cadela" (como lhe chamou penso que Hesíodo) pudesse ser tão rica de mistérios e simbolismos. Ocorre-me escrever um longo texto sobre ela: subitamente, também eu caio, venerando, perante a mulher que nasceu do ovo. Não nego que a figura de Helena nunca foi das que mais me atraiu: tendia rapidamente a esquecer, ao ler as aventuras dos heróis de tróia, que a guerra era toda por aquela mulher de bela cintura. Hoje, confesso-me do meu pecado, e agradeço a afrodite não me ter punido pelo meu desrespeito perante a beleza. Ao ler as suas palavras naquele canto quarto, sinto a nobreza e a elevação - na forma como se descreve, a tragédia de ter sido um instrumento. Dalguma forma, o episódio doze da primeira temporada de Xena, "Beware Of Greeks Bearing Gifts", já me tinha aberto para as possibilidades alternativas de leitura trágica da figura de Helena. Erro meu, presunção minha!, a de acreditar que haja uma figura só, na hélade, que não seja intrinsicamente trágica! Se até na arcádia, ego sum... Percebo enfim tudo, atravessado por uma seta afiada de lucidez: o que sempre me levou a menorizar Helena, o ela ser sempre apenas um pretexto, um instrumento, é precisamente a sua grande tragédia, porquanto ela é uma pessoa. Lembro a Helena de fausto, de goethe: hei-de chegar a ela, no meu estudo (que pode demorar o mesmo tempo a emergir que eu demorei a perceber a verdade de Helena). Helena é desejada, mas nunca amada. O que durante tanto tempo eu julguei um defeito da sua figura, o ela só ser conhecida pela sua beleza, vejo agora ser o seu grande drama, mulher reduzida a uma só dimensão, expurgada da sua complexidade humana, resumida a uma face única (ai!, e o ser humano é um jano com tanto mais do que dois lados!). Aquiles é corajoso, intempestivo, irritável, desmedido, mas também bom orador; Heitor é bom pai, esposo, filho, cidadão, guerreiro: mas, ai!, Helena é só bela! - ou isso os homens pensam dela apenas! Bastou-me descobrir uma outra faceta dela, apenas, para reequacioná-la completamente. Doravante, Helena, não te tratarei mais com desrespeito. Perdoa as minhas falhas passadas e celebremos, celebremos a nossa união com um brinde da tua droga.

Imagem: Scarlett Johansson, tradução de Helena hoje.